Colunistas

Os super-heróis e as instituições

Flávio Meurer, professor da Univates [email protected]


Retorno neste espaço ao tema dos heróis, em razão de fatos recentes que devem ser de conhecimento dos leitores: as reportagens do portal jornalístico The Intercept Brasil feitas a partir do vazamento de conversas entre procuradores da Lava Jato e Sérgio Moro, então juiz do processo.

O caso ainda está quente, e muitos atacam as reportagens com alegações sobre a possível ação de hackers e a ilegalidade da obtenção das conversas, sobre a normalidade das conversas entre promotoria e juiz, fora as acusações contra o editor-chefe do portal, Glenn Greenwald, e propostas para deportá-lo (!).

Independentemente dessas discussões, quero me ater à reação de muitas pessoas diante do conteúdo das conversas. Segundo essas pessoas, acusar a ilegalidade das relações entre Moro e os procuradores significaria defender o principal de seus alvos, Lula.

Certamente, quem defende Lula verá nessas conversas a prova definitiva da ação parcial de Moro no processo. Porém, quem defende que as instituições atuem de forma republicana não pode admitir que se cometam ilegalidades para combater outras ilegalidades. Só que muitos defendem a atuação do juiz em nome de um "bem maior".

Eis o ponto a que eu queria chegar: a individualização heroica da justiça. A crise, a insegurança e o caos cognitivo nos fazem ansiar por alguém que se imponha e que bote ordem na casa. Assim, alguém em uma posição de poder que promete castigar os vilões se alça à condição de herói. Na ficção, o Super-Homem tem poderes extraordinários e conserta as falhas das instituições humanas, como a polícia, o sistema judiciário e até a defesa civil, que não conseguem conter todos os crimes e desastres existentes.

No entanto, esse personagem também possui uma moral impecável, o que o impede de usar seus poderes para interesses pessoais. Infelizmente, não vivemos nesse mundo de fantasia. É por isso que na vida humana não-ficcional as instituições devem ser a maneira pela qual podemos controlar os ímpetos dos poderosos, porque estes são humanos, falhos, cheios de interesses e vaidades.

No Brasil, ao que parece, as instituições são vistas justamente como um empecilho para que "o certo" seja feito. Não sei dizer qual a origem dessa percepção nacional, mas certamente ela é um fator decisivo para a fragilidade da nossa democracia republicana e para as constantes crises das instituições, que nos fazem flertar volta-e-meia com o autoritarismo.

 


Comments

SEE ALSO ...