Geral

Índios interrompem BR-386

A noite de sábado foi de trânsito lento na rodovia. Por volta das 17h30min, mais de 50 indígenas ...


A prisão da líder da tribo indígena caingangue que reside à margem da BR-386, próximo do trevo de acesso a Bom Retiro do Sul, na manhã de sexta-feira, resultou em um protesto iniciado por volta das 17h30min de sábado. Mais de 50 pessoas, entre adultos e crianças, participaram da mobilização que interrompeu o trânsito nas duas pistas, sentido interior/capital e vice-versa, com madeiras, móveis e galhos de árvore. Na manhã de ontem, por volta das 11h30min, os índios atenderam ao pedido da Polícia Rodoviária Federal (PRF) de Lajeado e liberaram a rodovia para o trânsito de veículos.
Mas o pedido só foi acatado depois que o filho da líder da tribo, Adécio Soares de Souza, explicou as condições para a liberação da estrada. "Entramos em acordo, mas fica combinado que se até amanhã (hoje), às 17h, a cacique não for transferida para Encantado ou para casa, nós fechamos novamente a BR." Souza explica que essa foi a melhor alternativa, já que respeita o trabalho da PRF e entende que a instituição não têm nada a ver com a situação.
Participaram da negociação o chefe da 4ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal, Adão Madril, e o chefe operacional, Leandro Wachholz. "Não combinamos nada, o que fizemos foi colocar que eles deveriam desbloquear a rodovia. E nos comprometemos a ajudar entrando em contato com a Procuradoria da República, com o delegado responsável e com a Funai", afirma Wachholz.
O chefe operacional da PRF explica que depois da negociação, os índios estabeleceram que iriam bloquear o acesso novamente caso a solicitação não fosse atendida.
A noite
A manifestação que começou por volta das 17h30min de sábado parecia não ter fim. Indignada com o fato de sua cacique ter sido presa por tráfico de drogas, a aldeia se uniu e expôs em detalhes tudo o que queria, já que os índios afirmam que a líder é inocente e que jamais comercializou qualquer tipo de droga, mas garantem, ela é usuária e possui duas doenças graves: HIV e câncer.
O filho da cacique, Adécio Soares de Souza, conta à reportagem que era viciado em pedra há oito anos, mas que hoje só fuma maconha. "Não tenho vergonha de dizer, mas não somos traficantes. Eu assumo, fumo um baseado, mas eu sou trabalhador, tenho minha carteira assinada." Souza ressalta que sua mãe possui HIV e câncer. "Ela é uma senhora de idade, já tem 53 anos, queremos ela de volta, o lugar dela é aqui com todos os seus filhos."
Debaixo de chuva, que não deu trégua, os índios gritavam por justiça e clamavam o nome da líder da aldeia. "Para liberar a rodovia, só trazendo a cacique, só saímos daqui mortos. Podem vir mil, dois mil policiais que não vamos sair." Souza conta que o único traficante que existia era seu cunhado, mas foi morto em junho deste ano.
O filho da cacique esbravejava que a delegada regional Elisabete Barreto Müller afirmou que se houvesse manifestação para trancar a rodovia, ele seria detido: "A polícia disse: 'Se vocês fecharem a BR, vamos matar todo mundo'. Eles prometeram nós (sic), falaram que se viéssemos em cem, eles viriam com mil e cem".
Souza diz que transferiram a líder da tribo de madrugada para Guaíba. "Como que nós vamos ir visitar ela (sic)?" Ao lado do irmão, a menor de 17 anos diz que não sabia do tráfico. "Meu marido, o Joel dos Santos, traficava, minha mãe não tem nada que ver com isso. Eu nunca soube de tráfico de drogas, cuido do meu bar; levaram o dinheiro do meu caixa, do meu trabalho que é honesto. Me ameaçaram dentro da viatura e falaram que se nós trancássemos a BR, eles viriam matar todo mundo, nós e as crianças", conta a jovem índia.

"Não vamos ficar reféns dos índios."
A delegada regional Elisabete Barreto Müller  afirma que a polícia não irá ficar refém dos índios: "Nos preocupamos com a sociedade que cerca aquelas pessoas, e com as crianças e adolescentes que convivem com essa vulnerabilidade". A delegada explica que a operação foi um sucesso. "Terminamos a operação de forma muito calma, muito profissional, pois ela foi planejada para que não acontecesse nenhum tipo de problema."
A delegada destaca que para sair tudo como o planejado foi mobilizado um número superior de policiais e, em nenhum momento, o grupo seria irresponsável de dizer que os índios seriam mortos. Elisabete salienta que a narrativa dos índios sobre a ameaça de matá-los é um absurdo e uma forma de desviar as atenções: "Nenhum policial falaria isso, a recomendação dada é de que estávamos cumprindo o nosso papel e que não poderiam (indígenas) praticar mais crimes, pois se o fizessem, seriam punidos por isso."
Quanto à possibilidade de a cacique ser transferida, a delegada afirma que isso compete ao Poder Judiciário. "Eles que irão determinar onde ela ficará - o delegado Rodrigo é o responsável pelo caso. Mas a juíza de plantão está ciente do assunto e hoje o caso será estudado para ver se existe a possibilidade dessa vaga em Encantado."

Ocorrência
Um mecânico de Estrela, de 36 anos, teve o seu veículo Gol, placa ISZ-5779, retido na madrugada de ontem, na aldeia indígena. Segundo a ocorrência, ele dirigia o automóvel sentido interior/capital quando, na barreira feita pelos índios, foi parado. Nesse momento, as pessoas jogaram objetos contra o automóvel e mandaram que o condutor descesse.
O estrelense ouviu quando falaram que iriam matá-lo, então saiu correndo em direção a Porto Alegre. Dois quilômetros depois, quando avistou uma residência e viu que não se tratava da aldeia indígena, pediu socorro. O morador abordado levou a vítima até a Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência.
O veículo foi recuperado no acostamento da rodovia, em frente da aldeia. No automóvel estavam um liquidificador e a quantia de R$ 1,7 mil.

Carolina Gasparotto
[email protected]

Comments

SEE ALSO ...