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Utopias

Flávio Meurer, professor da Univates [email protected]


Nos próximos 30 dias, dois eventos marcantes vão completar 50 anos: a chegada do homem à Lua (20 de julho) e o festival de Woodstock (15 a 18 de agosto). Eles representam, cada qual à sua maneira, expressões de utopias características daquele tempo, mas que valem para toda nossa história. Em meio à Guerra Fria, o planeta vivia em constante tensão, pela possibilidade de uma guerra nuclear que poderia devastar grande parte da humanidade. Assim, a ideia de que precisávamos pensar em formas de viver em harmonia estava na ordem do dia.

Ainda que a viagem à Lua faça parte justamente dessa disputa entre duas potências mundiais, como demonstração de superioridade sobre o inimigo, era possível ver nessa realização um exemplo do que nós somos capazes enquanto espécie. Menos de 70 anos após a invenção do avião, o ser humano chegava a um corpo celeste que não a Terra. Esse tema está presente desde nossas mais antigas mitologias, estava nos contos, nos romances e nos filmes de ficção. A técnica, seja como magia, seja como ciência e tecnologia, exerce sobre nós um verdadeiro encanto, como utopia da solução ou da superação de todas as nossas mazelas, fraquezas e fragilidades. Se podemos chegar à Lua, podemos acabar com as doenças e com a fome. Por que não?

Como contraponto a essa utopia tecnológica, o festival de Woodstock procurou encarnar um ideal cultural e político de paz e amor, propondo uma espécie de naturalismo, de retorno ao nosso laço fundamental com a natureza. Era uma forma de reação da juventude à Guerra do Vietnã que estava em curso, mas também era uma forma de expressão contra regras sociais. As roupas desleixadas e coloridas, os cabelos compridos e a liberdade sexual buscavam contestar os padrões da vida americana tradicional, como a família monogâmica heteronormativa e a busca por sucesso e acúmulo material.

Os anos seguintes mostrariam que a realização desses ideais não era tão simples: a tecnologia por si só não produziria um mundo melhor se não fosse usada para objetivos justos, nem os sonhos de paz e amor poderiam se realizar apenas pela boa vontade de algumas pessoas. De qualquer forma, os anos 1960 deixaram marcas profundas na cultura ocidental, como uma referência para a qual ainda podemos olhar quando os caminhos parecem escuros.
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Para quem quiser conhecer ou relembrar um pedacinho dessa época: neste sábado, às 18h27min, no Espaço Cultural Dr. Wilson Dewes, estarei com Tiago Segabinazzi, Aline Pfeil e a banda Five O'Clock numa conversa-show sobre a obra dos Beatles (1966-70), seu contexto e impacto na cultura. Ingressos no local.


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