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ANO 40 - Nº 9331 - Vale do Taquari, Lajeado, edição de quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Capa | Paraíso Brasil

Paraíso Brasil
Por: José Carlos Laitano

O juiz e o patrocínio A revista Época fez o favor de destinar duas páginas para mal informar as pessoas. Teve o prazer de bater nos juízes. Motivo: patrocínios. No caso, o foco foi o patrocínio cultural. Vejamos: A Academia Paulista de Magistrados realizou um concurso literário e obteve o apoio do Bradesco, da Gol Linhas Aéreas e Federação das Unimeds e ofertou ao vencedor o prêmio de 25 mil reais mais viagem a Paris com acompanhante orçada em 7.500 reais. Total: 32 mil reais. Ressaltou que todas essas empresas tem causas na Justiça. Utilizando o mesmo critério, a revista Época é suspeita porque suas páginas estão recheadas de anúncios do mesmo Bradesco, do Itaú, Azul Transporte Aéreos, Governo do Ceará ? a lista é grande. Assim como o juiz virou suspeito porque uma academia literária obteve patrocínio, mais ainda a revista, o jornal, a rádio, a tevê podem perder a liberdade de informar para não desagradar seus tutores financeiros. Esta discussão é elementar nas faculdades de comunicação. A maldade do texto é que, primeiro, denomina os escritores magistrados de ?juízes que nas horas vagas arriscam-se a escrever ou pintar como uma atividade bissexta?. A reportagem é de Walter Nunes. Esse jornalista não pode estar mais mal informado. Como explico em meu curso Criação do texto jurídico, nós escrevemos mentalmente e só depois reescrevemos no papel e essa transposição dá-se pelo filtro das emoções e da ideologia. Por isso não existe texto (e sentença) isenta. Nem notícia, nem reportagem. Ficou clara a predisposição da revista em atacar os juízes. Tudo bem que o faça, mas faltando motivo ou argumentação, falem comigo, posso 500 juízes que oferecerão, imediatamente, bons motivos para falar mal da Justiça. Se quiserem criticar, é fácil. Juiz sabe que está adoecendo de tanto trabalhar e nunca receberá reconhecimento, elogio nem pensar! E não falta um e outro para deixar a bola picando na marca do pênalti, seja por besteira humana, seja porque se arvoram a defender tese a custa dos outros. Quem faz cultura sabe as dificuldades. Quando obtém um patrocínio, coisa muito difícil, logo surge um crítico mordaz. Se esse jornalista quiser, posso indicar quantidade não imaginável por ele de magistrados escritores, músicos, artistas plásticos com qualidade igual ou superior aos nomes indicados naquela reportagem como ?artistas profissionais?. Basta examinar o Caderno de Literatura e as coletâneas que organizo pela Ajuris para conhecer escritores e artistas plásticos que não são bissextos e muito menos amadores, na sua acepção pejorativa. É claro que as distorções ocorrem. Aqui na Ajuris, quando retornei, setembro de 2008, redirecionei o patrocínio do Banrisul destinado ao Caderno de Literatura. Encontrei uma verba de 85 mil reais, sendo dois terços para o oba-oba do lançamento. O produto arte tem que valer por si, não adianta confete. Com o mesmo dinheiro fizemos três números do Caderno e uma coletânea. O patrocínio é um negócio para quem dá o dinheiro, precisa ter retorno institucional, tem que valer a pena ao anunciante para repetir o apoio. O Banrisul está satisfeito, a sua agência de publicidade está satisfeita. Nenhum juiz gaúcho mudou sua sentença por causa desse patrocínio. Só na cabeça do jornalista. É assim que se prepara a chamada opinião pública. Qualquer ditadorzinho sabe a receita: distorce os dados, depois faz pesquisa (ou eleição).


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