Crônica - Criador e criatura
Por: Da Redação
?Chega de trabalho/Basta de tanto lero-lero/Não vou mais encher as mãos de calo/Vou viver da bolsa do Fome Zero/Minha mulher está muito feliz/Já pediu dispensa do trabalho/Não quer mais ser uma faxineira/Para viver dessa bolsa brasileira/Por isso eu canto/Obrigado, presidente/Por o senhor ter estendido a mão/Distribuindo esmola via cartão/Retribuído com a sua reeleição/Este é o país que vai pra frente/Com essa massa ociosa e contente/Vivendo da ociosidade/Ainda diz que isso é brasilidade/Por isso eu canto obrigado, presidente/Por o senhor ter estendido a mão/Distribuindo esmola via cartão/Contrariando o nosso Rei do Baião.?
Vasco Vasconcelos e Bloco Carnavalesco Siri na Lata, do Recife
Sei que é chato falar de coisas sérias nestes dias em que o país inteiro regride a um estado infantil e ébrio. Pois é claro que é o Carnaval que nos distingue do resto do mundo. Afinal, desconheço outro país que se dê ao luxo de parar para brincar e colocar em dia tudo que está à ?flor da pele?.
Óbvio que isso também é conversa de alemão doente do pé cujo ouvido é sensível demais ao som primitivo dos tambores.
Então, quem quiser comemorar e brincar, que o faça. Quarta-feira, os jornais, já cansados da folia, farão o balanço das centenas de mortes no trânsito, lamentarão os homicídios e os bêbados ao volante e, por fim, começaremos o ano. Como sempre, achando tudo tão normal.
Parece uma descrição mal-humorada? Saibam que não é. Apenas se trata de um lamento pelo tempo que despendemos sendo lúdicos ou soltando os instintos. Porque é isso que, no fundo, nos atrasa como civilização. Nos falta a força interior para, represando o animal, chegarmos ao intelectual.
Gostamos de ser ?criativos?, ter a ideia e pronto. Desenvolver, patentear e vender é muito cansativo. Somos o país da inspiração sem transpiração. Ou, como já disse outro presidente, somos o país do gogó.
Deve ser por isso que colocamos na maioria dos cargos públicos gente despreparada, mas boa de conversa. Para eles, técnicos são aqueles chatos que cobram normas, regulamentos e metas. Gente sem ?sensibilidade social?.
Só que este ano subverteu-se essa noção geral. Da cartola dos gênios políticos foi sacado um coelho, ou melhor, uma coelha, que nos é apresentada como a técnica ideal. Concentrada, estressada e sem tempo para os salamaleques da política, ela parece o contraponto ideal aos improvisos e metáforas simplórias de seu criador.
Resta saber se a criatura continuará fiel ao criador caso consiga ascender ao poder. A experiência passada nos diz que não.
(*) neurocirurgião
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