Namorar ainda resiste
Por: Marisa Martins
Antes de viajar, em maio, anotei na agenda relação de temas especiais a fotografar.
Entre eles, estátua ou busto de Lênin, o revolucionário cada vez mais esquecido na Rússia; o uso de bicicletas como meio de transporte, em diferentes países; pratos típicos; formas de lazer na primavera europeia; flores, lagos, cisnes, picos com neve na Suíça e Áustria; vinhedos da Alsácia, na França.
Uma anotação foi sublinhada: casais que namoram à moda antiga.
Pensei não ser fácil a missão. Por vezes, o romantismo parece ter cedido lugar ao universo de encontros virtuais, relações descartáveis, alta rotatividade entre ficantes, carência de vocabulário para uma declaração de amor.
Foi mais fácil, no entanto, encontrar namorados enamorados do que descobrir escondido busto de Lênin.
Já no primeiro dia em Moscou, cena, talvez, só vista em filmes, desenrolou-se à minha frente.
Depois de visita à Praça Vermelha, início de tarde, resolveu-se caminhar até o hotel. No percurso, tentador calçadão, com tentadores cafés e restaurantes de rua. Atraíram tal ímã.
Escolhida simpática cantina, enfrentado o problema da língua (é difícil encontrar garçom com inglês inteligível), enfim apareceram chopes e tábua de queijos.
Eis que jovem e desengonçado russo, buquê de rosas brancas nas mãos, senta na mesa ao lado. Terno, camisa lilás, sem gravata, sapatos de verniz. Buquê sobre a mesa, pede um cálice de absinto. Ansioso, passa os dedos pelos cabelos. Desgrenha-os.
O tempo passa. Mais um cálice de absinto. As rosas, para quem serão? Aguardará alguém? Será um noivo em solitária despedida de solteiro? O imaginário romântico corre solto.
Caminhando lentamente, cabelos loiros refletindo raios do sol vespertino, linda e elegante mulher aproxima-se.
Os olhos do jovem desengonçado, de camisa lilás e sapatos de verniz, acompanham cada passo de gazela da bela da tarde.
As mãos buscam as rosas. As rosas buscam mãos delicadas, que se estendem.
Tímido potselui, beijo em russo, roça a alva face. Sentam e dialogam baixinho, tímidos como o beijo. Namoro iniciando? Namoro recomeçando?
Nunca vou saber. Apenas sei que vi, em 2010, um homem oferecendo rosas a uma mulher. Indiferente a curiosos olhares e à indiscrição de uma câmera fotográfica.
No universo, apenas ele e a amada. Flores como testemunha...
P.S.: Por parques e ruas, casais de mãos dadas mostraram à lente que o namorar ainda resiste.
O objetivo estava cumprido.
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