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Psicologia das massas


Em um dos estudos que compõem a obra O mito da agulha hipodérmica e a era da propaganda, o professor e pesquisador Francisco Rüdiger nos apresenta as análises do inglês John Hobson (1856-1940) sobre o papel da imprensa durante a Guerra do Boers, na virada do século XIX para o XX. Na marcha do expansionismo imperialista britânico, os ingleses instalaram-se na costa sul-africana, expulsando os colonos holandeses, chamados boers. Essa teria sido uma das primeiras guerras midiáticas, em que as informações, graças às novas tecnologias de comunicação, chegavam rapidamente ao consumo das massas dos grandes centros do capitalismo. Hobson observa que, nesse contexto, a imprensa se torna um instrumento de manipulação da opinião pública a partir de interesses econômicos dos grupos controladores da mídia.

Entretanto, o jornalista inglês compreende acertadamente que essa manipulação não se dá no vazio, mas se efetiva porque encontra um terreno fértil na chamada "psicologia jingoísta". O termo jingo surge a partir de canções inglesas do final do século XIX que promoviam o nacionalismo e que eram entoadas em bares e casas de música. As condições de vida nos centros urbanos industriais tinham se tornado motivo de tensão para as massas assalariadas, que buscavam nas narrativas da guerra uma fonte de desfrute estético e emocional. Assim, a imprensa passa a promover e incitar essa mentalidade já disseminada de forma mais ou menos explícita na sociedade inglesa. Hobson elenca, então, as características da psicologia jingoísta: credulidade ideológica e falta de senso crítico; barbarismo sádico como compensação de desejos reprimidos; imediatismo intelectual, seguindo a onda geral a partir de informações fragmentadas e desconexas; embotamento espiritual, deixando-se tomar pela raiva; cinismo político, preferindo fingir desconhecimento das verdadeiras motivações por trás das ações políticas; e fatalismo histórico, apregoando que o que aconteceu, aconteceu porque tinha que ser. Resumidamente, segundo o autor, o instinto de perseguição entre os sujeitos num contexto cada vez mais tenso aponta, de forma imaginária, para as aventuras do imperialismo britânico, ou seja, para inimigos externos.

Mas isso, todos sabemos, são coisas do passado, e qualquer semelhança com eventos atuais é mera coincidência.


Tiago Segabinazzi

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