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Possessão

Tiago Segabinazzi


Tem uma música do Jorge Ben, na época que ele ainda era só Ben, que começa assim: "Eu vou torcer pela paz, pela alegria, pelo amor". Aquela conhecida mão direita que revolucionou o nosso samba conquista o ouvido já nos dois primeiros acordes e permite que ele cante esganiçado como quem não quer nada mais além de dizer sim ao mundo.
Gostaria de poder cantar assim, despreocupado, e só torcer para o governo eleito dar certo.
Foi empossado o novo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que logo tratou de mostrar a função da pasta que chefiará num país continental que ainda sofre com a má alfabetização: combater o marxismo cultural e a "ideologia de gênero" (termo equivocado, pejorativo, perverso e inadequado, diga-se).
Ao assumir o Ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo criticou o "globalismo" que busca "romper a conexão entre Deus e o homem"; ele também quer definir uma "ordem internacional diferente": com ajuda dos Estados Unidos e de Cristo. Sim, haja fé. Além disso, faz parte do "globalismo" e do "esquerdismo" questões de meio ambiente e de clima. "Climatismo", diz ele.
A propósito, se sobrar Ministério do Meio Ambiente após as atribuições de boa parte de suas funções ao da Agricultura, quem o comandará será Ricardo Salles, já condenado por improbidade administrativa por alteração de mapa ambiental do Rio Tietê para favorecer mineradoras. Seu primeiro objetivo é agilizar o licenciamento ambiental.
Boa parte do que se viu nesses discursos e nos de outros ministros empossados é, antes de tudo, apontar para um suposto inimigo indesejável para justificar sua própria atuação: o marxismo, a ideologia, o socialismo e o politicamente correto - como disse o presidente em seu discurso.
O bem só existe por oposição ao mal. Quem desejaria a salvação se não houvesse o medo do inferno?
Por isso é que o governo eleito, apesar de - em discurso - desejar a união do país e uma sociedade sem discriminação, continua investindo na tática de, primeiro, criar o mal, para, então, se oferecer como o bem, com gostinho de "mal necessário".


Tiago Segabinazzi

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