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Centenário dos mestres da literatura
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23 de August de 2012

Centenário dos mestres da literatura

A singularidade de autores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Nelson Rodrigues faz suas obras transcenderem os séculos

O passado não existe na literatura brasileira. A prova está no cinema, na televisão, nas editoras de livros e na própria escola que reinventam obras de escritores que se destacam pela singularidade. São autores como Erico Verissimo, Jorge Amado e Nelson Rodrigues, que se estivesse vivo, hoje completaria cem anos. Antes dele, o escritor baiano teve seu centenário marcado por homenagens em todo o país, entre elas a adaptação de obra no remake de Grabriela. Além das produções televisivas, cinema e teatro, não se furtam de adaptar as narrativas. É uma forma de reverenciar obras que não têm comparação.
Jorge Amado e Erico Verissimo são escritores pertencentes à segunda fase do Modernismo, mais especificamente ao chamado Romance de 30. Ambos carregam como traço comum preferência pela verossimilhança; estrutura narrativa, em sua maioria, linear; uso de uma linguagem “urbana”, e uma perspectiva crítica em relação às características sociais, políticas e econômicas do espaço narrado e das personagens retratadas, explica a mestre em Letras, professora de Literatura do Centro Universitário Univates e do Colégio Evangélico Alberto Torres, Rosiene Souza Haetinger. A popularidade das obras desses autores é o que os torna ícones da literatura. “Eles conseguiam sobreviver da literatura”, acrescenta a professora do Colégio Madre Bárbara, Grasiela Bublitz.
Nem tão inserido nos círculos escolares, mas do mesmo jeito no gosto popular, Nelson Rodrigues se destacou pela ousadia. “Na escola, trabalha-se Nelson Rodrigues somente no fim do 3º ano, e mesmo assim, é um tema que precisa ser ‘filtrado’”, explica Grasiela sobre o teor das narrativas do autor de Vestido de Noiva, obra que marcou a estreia do teatro moderno no país. Nelson Rodrigues era dramaturgo, escritor e jornalista. Uma carreira diversificada que conferiu a ele a capacidade de inovar. Para Grasiela, o legado do escritor está na dramaturgia. “O teatro foi um segmento que ficou de fora das mudanças causadas pela Semana de Arte Moderna em 1922. E Nelson Rodrigues inovou em todos os sentidos, foi ele que instalou a simultaneidade do tempo nas peças, falou sobre assuntos que até então não se falava, como suicídio, adultério, loucura. Ele traçou um painel da sociedade que até então não havia sido mostrado”, explica a professora.

Reinventados
A televisão brasileira pede licença à literatura para personificar personagens que fazem parte do imaginário popular. “Afinal, quem nunca ouviu falar de Ana Terra, da obra O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo? Quem não conhece Gabriela, Tieta, personagens marcantes de Jorge Amado?”, indaga Rosiene. Televisionar as obras é uma forma de atrair o público para a literatura, entende a professora Grasiela. “Quando eles veem a minissérie ou o filme, muitas vezes acabam se interessando pela obra do autor”, diz, referindo-se aos alunos de Ensino Médio que estudam, principalmente, as obras de Jorge Amado e Erico Verissimo. É a história narrada em O Continente que fez o estudante do 3º ano do Ensino Médio Iago Teixeira (16) se interessar pelo autor. “O livro aborda história do Rio Grande do Sul, por isso me interessou, pela forma como foi contada”, declara. A narrativa de O Tempo e o Vento agora é adaptada ao cinema, no filme dirigido por Jaime Monjardim. Mas antes disso, a obra se transformou em minissérie, na década de 1980.

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Érico Verissimo
A obra do escritor gaúcho apresenta duas fases. A primeira caracteriza-se por explorar o espaço urbano (principalmente Porto Alegre) e a pequena burguesia, mostrando uma visão crítica e lírica ao mesmo tempo. Desta fase, destacam-se as obras Clarissa (1933) e Olhai os Lírios do Campo (1938). A segunda fase de Erico, composta por livros de cunho histórico e político, inicia-se com a publicação de O Tempo e o Vento, considerada sua obra-prima, a qual é composta por três livros (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) publicados entre os anos de 1949 a 1961 que narram dois séculos de história do Rio Grande do Sul.

Jorge Amado
O reconhecido escritor baiano também apresenta duas fases em sua obra. Na primeira, o cenário de suas histórias oscila entre a zona cacaueira (Cacau, 1933) e o mundo proletário e marginal (Capitães de Areia, 1937; Mar Morto, 1936). São romances em que há uma conotação política e social. Na segunda fase, aparecem as obras mais conhecidas do autor: Gabriela, Cravo e Canela (1958), Dona Flor e Seus Dois Maridos (1967), Tieta do Agreste (1977). Nestes livros, Jorge Amado, no lugar do panfletarismo, mostra uma nova visão acerca das massas populares: alegria, sensualidade, e capacidade de viver a existência sem preconceitos, ou seja, são eles que detêm a liberdade e a felicidade.

Nelson Rodrigues
O autor pernambucano por sua vez, renovou as bases do teatro brasileiro, uma vez que, até então, o teatro encenado no Brasil vivia de textos importados. Nelson Rodrigues, em suas peças, mostrou o Brasil aos brasileiros: o nosso “jeitinho”, a nossa maneira de falar, o modo como nos relacionamos, o nosso cotidiano. Mais do que isso, o autor explora os traumas morais e sexuais, em especial da burguesia carioca, a partir de um ângulo pessimista e, muitas vezes, chocante. Algumas obras até hoje chocam o público. Suas publicações mais significativas são Vestido de Noiva (1941), Álbum de Família (1944) e Toda Nudez Será Castigada (1965). As adaptações para a televisão só aumentaram a sua fama.


Susana Leite
susana@informativo.com.br



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