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Alazão

Cristiano Duarte, jornalista, [email protected]


O capeta estava por todo lugar. Deve ter aprendido a ser onipresente com o poderoso meu Deus. E assim como o criador de tudo, o diabo não tirava folga.

Eu estava ficando criativo nas desculpas que dava à Silvana para as fugas ao Jóquei Clube da cidade. 

O que começou com disfarçadas vezes em que eu fazia hora extra na redação chegou a passar por trabalho voluntário que distribuía sopa aos necessitados, coral e um suposto futebol das segundas-feiras que nunca foi jogado.

Já não ganhava muita coisa, mas já tinha consciência de que metade do que caía no meu bolso se esvaziava nos páreos de cavalos.

Fórmulas matemáticas, alinhamento dos astros e promessas ao divino. Todo tipo de sorte tentei. Havia prometido a minha prometida que jamais colocaria os pés de novo no Jóquei Clube. Cheguei a prometer a mim mesmo, inclusive.

Mas lá estava eu novamente. Andando a esmo, me esbarrando em ternos fedentos de cigarros paraguaios e pensando no que dizer à Silvana.

Ficava lembrando que ela havia pedido nada mais que uma bota cano alto para o inverno, um passeio em Gramado no feriadão e ainda estava parcelando o Ká 1998 para a amada.

Não me restava muito mais do que 100 mangos na carteira. Só de táxi até em casa, seriam 50. Sendo que na minha comanda já constavam 4 cervejas, dois pacotes de amendoim e uma água mineral.Ou seja, eu ainda estava devendo. Era tudo ou nada. Apostar nada mais era do que uma obrigação. Se eu perdesse, teria que pedir pra Silvana me buscar e pedir que me internasse numa dessas clínicas de pessoas compulsivas por alguma coisa.

Provavelmente, eu ainda apanharia e não poderia contar pra ninguém. Teria de dar uma desculpa no trabalho do tipo "eu caí da escada".

Caminhei até a grade de repesagem dos cavalos. De súbito, ouvi um "Ei, vosmicê!". Olhei para um lado, nada. Olhei para o outro, tampouco. Só restava eu e um cavalo.

- O que botaram no meu pacotinho de amendoim? Tô ouvindo coisas - pensei pra mim.

- Não. Deixe de despautério. Tenho pressa - disse atônito o cavalo.

- Ora, mas como assim? Você fala? - perguntei

- Óbvio. Não só falo, como também traduzo. Inglês, mandarim, espanhol, tupiguarani, castelhano e, perdona-me, tenho tentado um cadinho de francês. Au revoir.

Olhei para os lados. Ninguém me via. Tateei meu corpo, belisquei os braço e olhei na tela do celular. 15 chamadas não atendidas de Silvana. Meia-noite. A reforma da Previdência tinha acabado de ser aprovada.

- Desculpe, senhor cavalo. O que você tem para me dizer? - já entedendo aquilo como cousa natural.

- Não sou um senhor cavalo, meu fidalgo. Sou um jovem alazão cheio de sonhos. Em primeiro, peço-te que respeites a minha história -- ponderou o cavalo -- Chamo-me Raio Negro.

Cavalo esbelto, de cor preta, crina esbelta. Se não fosse uma mancha branca em formato de coração, seria impossível vê-lo aquela hora da noite.

- Quero que aposte em mim tudo que tiverdes. Pois hei de ter a glória da vitória - disse o alazão.

Ora, eu já tinha tentado de tudo. Mas desta vez, o próprio atleta é quem estava me dando o parecer.

Não só apostei todos os 100 reau que eu tinha na minha carteira como de aqui e ali eu fui achacando os conhecidos e arrecadei um empréstimo de nada menos do que mil pila.

Não era só a sorte que estava dada. Era o destino. Daria a Silvana, finalmente, a vida que ela tanto merecia.

Dado o tiro de largada, de pronto o meu alazão negro com mancha de coração já largou em último. Pensei, é Deus querendo me fazer a prova. Na terceira curva, a minha aposta equínea faladora permanecia na última colocação. "Você não me engana. Logo mostrará para o que veio ao mundo".

Nem figa fiz. 

Até que o alazão, de fato, cruzou em último lugar o páreo.

Fulo, sem acreditar no inacreditável, fui na linha de chegada esbravejar contra o cavalo suado e triste.

- Que história é essa, seu cavalo trovador? Você me prometeu que venceria.

- Ora, ora, Cristiano. Quem és tu para vir a esta hora questionar minha hombridade. Quantas promessas à Silvana quebrastes? Já faço muito em falar, agora queres que eu acerte apostas? Saia de minha frente, tenho pressa. Vou é ganhar dinheiro com traduções. Este negócio de fazer bico em corridas de cavalo não é para mim. Sou um intelectual - disse o cavalo saindo em trote.

Silvana nunca acreditou na minha história.

Nasci para ser solteiro.


Cristiano Duarte

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