Mulheres que transformam 2019

Verani Berté: despertar mudança na comunidade

Despertar a mudança na comunidade

Créditos: Kassieli dos Santos
"Gosto muito de trabalhar em comunidades carentes, me sinto muito bem" - Lidiane Mallmann

Quem vê a professora de fala serena e olhar terno, auxiliando e acolhendo a todos nos corredores e salas de aula, não imagina a jornada árdua da mãe, ex-freira e líder comunitária Verani Berté (54). Decidida e forte, ela prefere os desafios, acredita que sua vocação é trabalhar com crianças em situação de vulnerabilidade social. "Eu faço cobranças, mas sou afetuosa ao mesmo tempo, então as crianças sentem isso, querem me abraçar. O primeiro ano foi difícil, mas hoje tenho proximidade com a comunidade", conta. 
No dia a dia como coordenadora pedagógica, cria novos projetos, substitui professores em sala de aula, gosta de lembrar de datas especiais e preparar o chimarrão para esperar as colegas. A disposição para atender e ajudar as pessoas faz parte do seu jeito de ser. "Sempre tive isso dentro de mim, de colaborar com todo mundo, tiro do meu bolso para ajudar. A escola tem essa função social de auxiliar as pessoas", destaca.


Família e infância
Natural de Arroio do Meio, nasceu em 29 de setembro de 1964 e antes dos 4 anos mudou-se para Anchieta, Santa Catarina. Retornou para a região do Vale do Taquari quando já estava com 15 anos. De uma família de nove irmãos, seis mulheres e três homens, caminhava cerca de 4 quilômetros para chegar à escola. Na infância ficou muito de castigo por se distrair desenhando nas paredes com carvão. Como uma aluna dedicada, esteve sempre envolvida em concursos na escola, adorava declamar poesias e ajudar a mãe, que era catequista. "Minha mãe era muito criativa, era uma empreendedora, nunca nos deixou sem comer, inventava uma refeição, desmanchava roupas e fazia modelos diferentes para nos vestir, sempre fomos bem cuidados", afirma. Vinda de uma família religiosa, com nove irmãos, todos os filhos foram ensinados a colaborarem na comunidade.


Vida religiosa
Com 15 anos, Verani foi para o convento. Como freira, passou por Machadinho e Cachoeira do Sul, onde desenvolveu o trabalho em comunidades carentes, com realidades semelhantes à da escola em que atua hoje. "Acredito que essa vocação é algo intrínseco em mim", comenta. Aos 22 anos, decepcionada por não poder atingir seus ideais, deixou para trás a congregação e foi em busca de uma nova carreira. "Eu queria ir para regiões de missões, mas fui desincentivada porque era muito jovem, não estava satisfeita com o grupo em que eu estava", afirma.
Verani já atuou como catequista, por cerca de 30 anos, coordenadora de comunidade católica e hoje integra a diretoria da Comunidade Nossa Senhora do Caravaggio. "Nossa família é muito envolvida no Bairro Campestre, todos estamos ligados em alguma função, aprendemos isso em casa", explica. Além disso, toca violão e gosta de animar as celebrações na comunidade.


Recomeço
Depois de deixar o hábito, mudou-se para Lajeado em maio de 1988 e precisou começar do zero. Seu primeiro emprego foi em uma fábrica de calçados. Enfrentou a dificuldade de ingressar no mercado de trabalho e passou pela readaptação. "Tinha somente as vestes de freira. Eu queria roupas para poder sair, só tinha as vestes de freira, na empresa falavam: 'Nunca trabalhou, não vai saber fazer nada'", conta. Com determinação, no mesmo ano, em dezembro, fez concurso do munícipio, descobrindo a vocação de professora.


Amor pelo ambiente Escolar
Formada em Artes Visuais e Teologia, com duas especializações, Arte e Educação e Coordenação Pedagógica, atua como coordenadora pedagógica de séries iniciais e secretária do Conselho de Pais e Mestres na Escola Estadual de Ensino Médio Santo Antônio. Também é coordenadora pedagógica da Educação de Jovens e Adultos na Escola Municipal Ensino Fundamental Campestre e é presidente do Conselho Escolar. "Já tive a oportunidade de assumir a coordenação pedagógica em escolas mais próximas da minha casa. Mas gosto desse tipo de realidade, gosto muito de trabalhar em comunidades carentes, me sinto muito bem", explica.
Para o Bairro Santo Antônio, desenvolveu como uma inovação dentro de seu trabalho, a pesquisa socioantropológica, que consiste em realizar junto com os professores a visitação das famílias do bairro, fazendo o levantamento das necessidades e anseios da comunidade, para estruturar projetos que serão trabalhados com os alunos. "A tendência é sempre focar no que é ruim, mas nós queremos dar o enfoque às coisas boas do bairro. Nossos alunos merecem uma qualidade de ensino", comenta.


Mãe solteira
Durante o período em que esteve na cidade de Ijuí para cursar a faculdade de artes visuais, conheceu o pai de seu filho, com quem teve um relacionamento de 5 anos. O filho único, Giovani Miguel Berté dos Santos, nasceu em 12 de abril de 2002, quem Verani criou sozinha. Com as lágrimas escorrendo no rosto, ela fala sobre o período difícil devido aos muitos problemas de saúde do recém-nascido. "Durante a noite, ele tinha convulsões e eu tinha que sair correndo sozinha, todo ano ele ficava internado umas três vezes, passava semanas internado", lamenta. Aos 14 anos, o filho teve uma grave doença, que fragilizou toda a família. Giovani passou por tratamento, superando as dificuldades ao lado da mãe, uma mulher de muita fé. "Meu filho é meu motivo de orgulho. Recentemente em um texto premiado ele escreveu: 'Como o bombeiro, o professor também salva vidas, afinal, convivo com uma professora que faz isso todos os dias com as crianças onde trabalha", conta emocionada.

Realização de um sonho
Como uma mulher de muitos ideais, Verani tinha o sonho de realizar um evento de Natal. Durante os 18 anos em que atuou na Emef Nova Viena, exerceu a função de vice-diretora e participou da Caminhada Luminosa, realizada todos os anos com um evento na praça. Desse projeto, a professora teve a ideia de trazer uma nova proposta à Praça José Antonio de Santos Costa , no Bairro Campestre. "Tinha o sonho de realizar um evento de Natal, pensei que poderia fazer lá, o espaço tão bonito não era usado e valorizado", explica.
Como a iniciativa já pulsava em sua mente desde 2015, foi em 2016 que a ideia foi abraçada pela direção da Emef Campestre e tornou-se realidade. Reunindo todas as entidades do bairro, a escola, igreja, associação de moradores, clube de mães e a União Campestre, o evento já está na 3ª edição. O Natal na Praça é realizado na primeira sexta-feira do mês de dezembro. " É algo que vai ficar no bairro, cada ano tem mais participantes, é um momento voltado às famílias. A partir desse projeto, as famílias passaram a utilizar o espaço", comenta com orgulho.

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