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Ponto de vista


Deu. Daqui não saio

Na semana passada, descrevi o país como um ser duplo ("doppelgänger") a incorporar as mazelas de O Médico a o Monstro. Retorno à metáfora com atores ainda mais exatos na representação do bem como imagem e o mal como ação.

 

DEUS. Em 19 agosto de agosto de 2014, a polícia paraguaia invadiu uma casa luxuosa de Assunção e prendeu Roger Abdelmassih. Especialista em Reprodução Humana, o médico era famoso e havia sido dono da maior clínica de reprodução assistida do Brasil. Ganhara renome, confiança de pacientes e deixara a porção monstro emergir sobre o médico. Tinha 70 anos de idade e 278 anos de sentença para cumprir pelos crimes de tentativa de estupro, estupro e atentado ao pudor. A condenação decorreu do abuso de 37 mulheres. "Ele beijava as pacientes, acariciava-as e praticava atos libidinosos invasivos (carnal ou anal)", segundo depoimento relatados à juíza Kenarik Boujikian Felippe. Abdelmassih foi recepcionada com vaias ao chegar a São Paulo, sob escolta policial. Entre insultos, ouviu o desabafo da estilista Vana Lopes, ex-paciente que ficara estéril após ser abusada por ele: "Bem-vindo ao inferno. Ele disse um dia que era Deus aqui na terra" (reportagem de Gisela Barros para O Globo).

DE DEUS. No domingo passado, 16, João Teixeira de Faria entregou-se à polícia em Abadiânia. Seria uma ocorrência restrita ao lugar, caso a pessoa em questão não tivesse uma alcunha que o alçasse à categoria de quase santidade: João de Deus. Médium celebrizado pelas operações espirituais, o João glorificado mostrou-se um apreciador de prazeres mundanos. Hábil em relações públicas, investiu em amizades midiáticas, enquanto manipulava a fragilidade das pessoas. Entendedor da alma humana, transformou a pequena Abadiânia num centro de tratamento espiritual e atraiu gente anônima e célebre dos mais diversos lugares. Inflexível, manteve seus métodos excêntricos como dogmas. A prática mediúnica revelou-se uma diabólica história de submissão. O Ministério Público já recebeu 506 relatos de abusos sexuais, além de denúncia de lavagem de dinheiro. De Deus revela-se como o mais novo ser perverso dessa metáfora renovada agora por um novo título: O Médium e o Monstro.

DEU.
"O destino do MDB não é a oposição. O destino do MDB é o poder."Este aforisma de Ulysses Guimarães tornou-se uma sentença exata e definitiva para o jeito "emedebê" de ser. Vale lembrar a origem dessa organização essencial ao bipartidarismo nem tão distante. O Movimento Democrático Brasileiro não foi concebido como partido. Era, na verdade, um movimento de resistência à democracia de ficção criada pelo regime militar. Num período discricionário pelo dualismo permitido, opunha-se à situacionista Aliança Renovadora Nacional - Arena. Teve o mérito de ir além dos debates incipientes nas tribunas das câmaras, assembleias e Senado. Empunhou a bandeira da redemocratização, quando divergir era quase sinônimo de desaparecer. E foi em frente. Ficou datado com os efeitos da abertura que protagonizara, pois a democratização abriu novos espaços para militar. E com novas possibilidades, os múltiplos grupos ideológicos sob seu abrigo pularam fora, multiplicando-se em partidos - PCB, PTB (PDT posterior), PT e até mesmo o PSDB. Expurgado de personalidade, foi batido com severidade na tentativa de chegar à Presidência da República com Ulysses Guimarães. Recebeu inexpressivos 4,4% dos votos e incorporou de vez a frase lapidar ao comportamento e à identidade. Chegou à excelência fisiológica com o "impeachment" de Dilma Roussef. Maroto, conspirou sem constrangimento e com a desculpa de salvar a pátria. Conquistou o poder sem votos e sem ligar a parceira ainda recente no governo ferido de morte. Conseguiu fazer o inconcebível Temer trocar o quase anonimato do Palácio do Jaburu pelo brilho do Planalto. Agora, sublimou-se no Rio Grande do Sul. Aderiu ao governo vindouro mesmo antes de ser governo pretérito. Já sabemos a marchinha deste Carnaval: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira".
Deu, gente!

Feliz Natal aos leitores que me deram o presente da leitura quinzenal.


Gilberto Soares

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