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É o homem cordial quem divide o país


O homem cordial brasileiro é um ser do imaginário. O oposto da figura afável consagrada como resultado de uma sociedade harmônica e aberta a todos. Não é sinônimo de bons modos, muito menos de bondades, segundo o historiador Sérgio Buarque Holanda, que está na gênese do conceito. Aliás, ele redefiniu este adjetivo "cordial" como força indutora do desejo do brasileiro de estabelecer intimidade e horror a qualquer convencionalismo ou formalismo social. Esta síntese traz luzes ao Brasil real, bem diferente de uma Shangri-La sul-americana - receptiva e habitada por pessoas gentis.

 

SOBREPOSIÇÃO. A sociedade brasileira vicejou sem dar bolas à integração. Ergueu-se no lombo de 300 anos de escravidão. Procurou a modernidade na colonização que escamoteava a intenção de "branquear" o país. Tratou imigrantes europeus e asiáticos como seres de segunda classe - "colono" era uma expressão pejorativa. E aprofundou o fosso social ao permanecer gigante adormecido. Mas conquistou o mundo ao ufanar-se de seus encantos - "Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza..."
A leitura rápida de dados como os que se seguem desfazem a ficção. Ocorreram 2.414 latrocínios em 2016. No mesmo ano, mais de 41 mil brasileiros e brasileiras morreram no trânsito - muitos vítimas de "crime", embora a preferência pelo eufemístico "acidente". Comparando absurdos: nove anos da Guerra do Vietnã mataram 58 mil norte-americanos (não vou esquecer os dois milhões de vietnamitas). Atrocidades agravadas pelo imensurável de infrações sistemáticas às leis de trânsito, estímulos à propina e absoluta falta de gentileza. Apesar de tudo, o mito sobrepôs o real. Criou e ideia de uma terra bonita, multirracial e habitada por pessoas afáveis. Um histórico case de marketing, mesmo que involuntário.

RISCO. É este país de homens cordiais que chega dividido às urnas neste fim de semana. Do ódio temperado pelo autoritarismo histórico, que transforma uma decisão eleitoral cotidiana - de quatro em quatro anos - num arremedo de plebiscito. Da multiplicação exponencial de ofensas e da virulência que desrespeita opiniões contrárias. Onde poucos se dispõem a discutir programa de governo, e escasseiam os ambientes para praticar a nobreza da política. Este lugar espelha a metáfora de corsários em luta para tomar a nau. Eliminam-se uns aos outros, mesmo sem um plano para o amanhã. Insensatez próxima a se confirmar, mesmo com o risco da nação inconclusa virar um beco dividido entre irreconciliáveis vencedores e vencidos.

HUMANIDADE. Neste fim de semana, desligue-se das incontáveis "fake news" e maldades digitais. Não as compartilhe e pense como propiciar um futuro para todos - não apenas para aqueles que lhes são afins. No domingo, exerça seu direito da cidadania ciente de que a seção eleitoral não é uma arena e o voto não é uma arma, mas uma ferramenta para construir o futuro. Expresse a sua vontade com humanidade e razão. Aja para consolidar esta jovem democracia, sendo mais você e menos o homem cordial.


Gilberto Soares

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