Mulheres que Transformam

Eva Maria Belini Arezi

Um presente que curou uma dor

Créditos: Fernanda Mallmann
- Lidiane Mallmann

Há presentes que a vida oferece para as pessoas certas. Não há dúvida que esse é o caso de Eva Maria Belini Arezi (78), moradora do Bairro Planalto, em Encantado. Ela ganhou um filho no momento da vida em que mais precisava.
O menino não veio de seu ventre, mas isso pouco importa. O amor que dona Eva e o marido - seu Nestor Arezi, falecido no último dia 18 - ofereceram a ele, é como se fosse. Talvez pelo momento de dor que enfrentavam. Talvez pelas circunstâncias em que Cássio (35) chegou.

História de novela

No começo do ano de 1982, depois de vários abortos, dona Eva e seu Nestor aguardavam o nascimento da primeira filha. Mas a vida nova que queriam para casa acabou não chegando. No mês de fevereiro daquele ano, grávida de sete meses, ela percebeu que o feto havia parado de se mexer. "Eu fui para o médico e ele disse que a criança estava morta, tive de fazer uma cesárea. Ficamos muito tristes. O Nestor precisou levar o caixão com nossa filha para o cemitério", recorda.

Exatos 40 dias depois de perderem a menina, a vida surpreendeu o casal. Na madrugada de 27 de abril, bateram à porta da casa. "Era 1h da manhã, ficamos assustados. Eu comentei com o meu marido que deveria ser alguém que precisava de carro para ir ao hospital. Lembro que eu perguntei quem era, mas ninguém respondeu. Logo depois, uma cartinha foi colocada embaixo da porta e ouvimos o ronco de um carro indo embora", lembra dona Eva, com riqueza de detalhes, quase 36 anos depois.

A carta (reproduzida ao lado) está com dona Eva até hoje. Ao lê-la, naquela noite chuvosa, ela e seu Nestor abriram a porta. Numa caixa de papelão, estava um menino bastante frágil, que logo acomodaram nos braços. Começava a história de uma mãe, que teve a vida transformada por um filho.

A surpresa

Quando o dia amanheceu, a notícia de que uma criança havia sido largada na escada da casa dos Arezi ganhou a vizinhança. "Imagina o que foi... Acho que umas 200 pessoas vieram ver o nenê", conta dona Eva. Na época, ela procurou uma amiga, inspetora de polícia, e foram até o juiz. Ela ganhou um registro para ficar com o bebê. Chamou-o de Cássio e, dois anos depois, puderam dar a ele o sobrenome Arezi.

Como o menino veio apenas 40 dias depois de Eva perder sua filha, enxoval não foi problema. "Eu tinha roupinhas, caminha, mamadeira." Assim, a preocupação com o bebê muito pequeno, logo ficou pra trás. "Ele ganhava um quilo por mês", relembra a mãe zelosa.

Quando estava mais crescido e passou a ir para escola, os pais contaram ao menino como ele chegou à família.

Fim do mistério

A forma como Cássio "nasceu" para dona Eva e seu Nestor parece história de novela. E, tempos mais tarde, foi desvendada. Eva trabalhou por 25 anos como auxiliar de enfermagem, sete deles no hospital de Muçum e o restante em Encantado.

Quem levou a criança para Eva criar foi uma ex-colega de trabalho do hospital de Muçum. A mãe biológica de Cássio deixou o menino na casa de saúde, pois já tinha oito filhos e problemas com alcoolismo. Comovidas com a tristeza de Eva, que acabara de perder a sua filha, essa ex-colega e as irmãs do hospital de Muçum decidiram levar o menino à porta dos Arezi. "Eu perdi um filho e ganhei outro. Eu tinha o sonho de ser mãe, e ele veio na melhor hora. Trouxe a felicidade, é a nossa força. Imagina se não tivéssemos ele?", pergunta-se a mãe de coração.

Vidas transformadas

Cássio Arezi cresceu. É casado com Giselda, pai de três filhos. Trabalha nos negócios da família, uma funerária, que, até então, era conduzida por seu Nestor. Tem ajudado a mãe a enfrentar a recente perda do pai.

Sobre o passado, ele sabe que tirou a sorte grande. "Poderiam ter me colocado numa lata de lixo ou poderia ter ido para um orfanato", supõe, sobre o destino incerto. Em vez disso, ganhou todo o carinho de pais amorosos. "Ele sempre foi a alegria da casa. Transformou a minha vida", conta Eva, que teve a vida mudada (para muito melhor) pelo presente certo, na hora mais oportuna possível.

A carta

Abra a porta que seu filho quer entrar ele está no degrau perto da porta receba este filho como se fosse o que vocês perderam. Eu nasci às 10 horas do dia 26/04/82 peso 2,150kg estatura 48cm. Eu sou o nono filho, não sou batizado, não sou registrado, não tenho nome. Resolvi vir nesta casa, sei que vocês gostam muito de crianças eu preciso de um lar, de um pai e uma mãe, que me de todo carinho, como se fosse um filho seu. (sic) Se vocês não me querem, me coloquem numa outra porta, mas foi vocês que eu escolhi. (sic)
PAPAI MAMÃE não me deixem aqui na chuva.

 

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