Mulheres que Transformam

Cátia Schnorr

Receita de superação

Créditos: Rita de Cássia
- Lidiane Mallmann

A menina que escolheu o próprio nome é a mesma que decidiu ser feliz ao driblar as dificuldades da vida - que não foram poucas - e transformar cada uma em oportunidade. Desde a infância, Cátia Schnorr (47) encara a vida como uma dádiva que não pode ser desperdiçada com lamentos. A cozinheira autodidata faz sucesso com suas delícias, mais cursos e vídeos na internet. Ser alegre e ter força de vontade são seus ingredientes, assim como reinventar-se de tempos em tempos. Nascida Volmeres Regine Devitte, na pequena Nossa Senhora das Dores - interior de Nova Bréscia e hoje Coqueiro Baixo, ela acabou adotada por outra família, escolha de sua mãe, viúva e com outros dez filhos.

Os Meneghini buscaram a cavalo a menina suja e cheia de feridas de 1 ano e meio. Até os 4, a chamavam de Kika. O registro veio quando resolveram morar em Arroio do Meio. "Eu disse que queria ser chamada de Cátia", conta. Oliva foi a mulher que a acolheu. "Ela foi minha mãe de coração. A senhora que não sabia escrever o próprio nome me ensinou com exemplos as noções de vida. Me incentivava a aprender tudo. Com seu meio salário de agricultora, mostrou como ter controle financeiro e deixar as contas sempre em dia. Todos dizem que tenho um anjo bom comigo. Eu tenho certeza que é ela que sempre zelou por mim."

Bolo de laranja

Muito mais que uma receita, o bolo de laranja de uma vizinha fez nascer a paixão de Cátia pela cozinha. Aos 9 anos, a vontade de comer a levou a aprender a fazer. "Era o melhor bolo do mundo. Eu ia lá todos os sábados porque sabia que ganharia um pedaço. Um dia, pedi e ela ensinou." Para o bolo e outros doces, Cátia precisava de bons produtos. Ela então acompanhava a mãe adotiva nas idas ao banco para receber a aposentadoria. O meio salário tinha quer ser o suficiente para pagar a conta da farmácia e fazer o rancho do mês. Era o momento de escolher algumas guloseimas - e eram sempre ingredientes. Guardava em uma caixinha de sapatos para a hora das panelas. "Minha personalidade foi construída assim, pois, no meu inconsciente, ainda tenho uma gaveta onde guardo ingredientes indispensáveis."

Trajetória

Aos 16 anos, quando perdeu a mãe de criação, Cátia foi morar sozinha e escrever sua própria história. Estudava à noite, e comia pão e ovo para pagar o aluguel e os estudos no Ensino Médio - que, na época, não havia em escola pública em Arroio do Meio. "Sempre orgulhosa, eu não aceitava ajuda financeira." Ela já namorava o atual marido e dele teve auxílio, mesmo de forma indireta, com itens para a casa. Formou-se aos 18 anos, e aos 19, casou-se com Ademir Schnorr. "Fizemos tudo com a ajuda de amigos. Uma montou o buquê, outra fez a unha, o cabelo e outra emprestou o vestido como presente de casamento." O novo casal foi morar em um quitinete até conseguir construir a própria casa.

Realização

Cátia sempre trabalhou muito, em diferentes funções, do setor fiscal em um escritório a demonstradora em loja e eventos, passando pela pizzaria e loja de cortinas próprias. Mas a cozinha ainda falava mais alto. "Meu sonho de aposentadoria era que as pessoas tocassem no que eu falo, fizessem as receitas e sentissem os aromas. Então, surgiu a Cozinha da Cátia", explica. Com a ajuda do filho e produtor de vídeo Maicon, as dicas online e os cursos presenciais começaram a levar mais que receitas a quem se interessa em comer bem. Ela aproveita para passar um pouco das lições que aprendeu na vida. "Para o caminho, eu quero luz; para a alma, força; para o coração, fé; para as lutas, esperança; para o amanhã, confiança; para o tempo, paciência; e para minha vida, Deus." Assim, com uma pitada de entusiasmo, Cátia inspira outras pessoas a trocar as dificuldades por um bom bolo. E muito mais... tem pão de queijo, cocada, lasanha...

A família

Cátia mora em Bela Vista, Arroio do Meio. É casada com Ademir Scnhorr e mãe de Maicon e Leonardo. Depois de tanto ensinar as pessoas a reunir suas famílias em torno da mesa, ela precisava estar perto dos seus. "Já tive muito. Já escolhi deixar tudo. E optei por ter a vida que tenho hoje. Reduzi o financeiro, mas quem faz a comida na minha casa sou eu. Eu pregava no palco que a família se reúne ao redor de uma mesa, mas não acontecia com a minha. Agora sim. Esse era meu projeto de vida. Eu encontrei na cozinha a forma de dizer o quanto eu gosto das pessoas. A comida é minha alma."

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