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Policiais arriscam a vida para combater a criminalidade

Policiais contam histórias de situações que passaram durante a carreira na qual assumem a periculosidade da profissão para cumprir seu dever

Créditos: Caroline Garske
- Natália Richter

VALE DO TAQUARI | Do dever de sair para cumprir seu trabalho à incerteza do que vai acontecer e se vai voltar para casa. Desta forma se dá o cotidiano dos milhares de policiais que atuam todos dias nas ruas do Rio Grande do Sul e do Brasil. Na manhã de ontem, no Bairro Hidráulica, em Lajeado, três criminosos trocaram tiros com uma equipe da Polícia Civil de Estrela comandada pelo delegado Juliano Stobbe.

Já na última sexta-feira, policiais militares da Força Tática entraram em confronto com criminosos no Bairro Santo Antônio, também em Lajeado, e quase foram atingidos pelos disparos.

As situações mostram uma realidade violenta que, embora faça parte da rotina destes servidores públicos, também é motivo de angústia para os familiares que se despedem toda vez que eles e elas saem para cumprir o seu dever. De acordo com os dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP-RS), somente no primeiro semestre de 2019 foram cinco policiais militares e dois policiais civis mortos em situações como ataques a bancos, assaltos, abordagens e cumprimentos de mandados. Felizmente, na região do Vale do Taquari, nenhum policial foi morto neste ano. No entanto, vários passaram por situações que alertam para os riscos aos quais estão vulneráveis.


Vida salva por um segundo

Na noite da última sexta-feira (16), o soldado Luiz Henrique Feyh (28) viu, mais uma vez, os riscos que corre devido à profissão que escolheu. Durante uma abordagem a dois suspeitos de traficar drogas no Bairro Santo Antônio, em Lajeado, a guarnição da Força Tática da Brigada Militar (BM) precisou revidar aos tiros que os homens desferiram contra os policiais. "O indivíduo fugiu para dentro de um casebre e eu de imediato o segui. Quando eu estava chegando na porta - quase entrando -, ele deu um disparo com revólver de dentro para fora e a curta distância de mim. Foi um segundo, que se eu cruzo a porta, tinha tomado um tiro no peito, no braço, ou de repente na cabeça", relembra o fato ocorrido na semana passada, que resultou na morte de um dos criminosos que efetuaram disparos de arma de fogo contra os policiais militares ao serem abordados.

Além desta ocorrência, o soldado Henrique, que está há sete anos na Brigada, coleciona situações de risco pelas quais passou em municípios como Arroio do Meio, Marques de Souza e Lajeado. Ele é um dos integrantes da Força Tática do 22º Batalhão de Polícia Militar (BPM). Henrique destaca que, para ter êxito nestas ocasiões, é preciso ter treinamento, confiar no colega da corporação e agir dentro da técnica policial e da legalidade. "Tem que confiar no teu colega e ter o treinamento necessário para uso das armas de fogo e de várias técnicas policiais. É um grupo, cada um tem uma função na hora de uma abordagem e, em especial, em uma situação de confronto armado. Não se trabalha sozinho, a gente precisa sempre do colega para fazer a tua segurança", reitera. Mesmo apoiando a carreira do filho, o soldado conta que a mãe ainda sente medo de que algo ruim aconteça. "Até hoje ela tem muito medo. Ela lê as notícias e já sabe que sou eu. Ela tem medo de eu não voltar."


Na linha de frente

Junto de sua equipe, o atual titular da Delegacia de Estrela, Juliano Stobbe (35), monitorava uma Renault Duster roubada desde 7h de ontem. Por volta das 9h, ao tentar abordar os três indivíduos que tripulavam o veículo, os policiais foram surpreendidos por tiros vindos dos criminosos e precisaram revidar. Essa foi apenas mais uma das situações que o delegado Juliano Stobbe já presenciou em seus nove anos de atuação nas delegacias do Vale do Taquari. Com um perfil de trabalho de sempre atuar na linha de frente, ele acredita que é responsabilidade do delegado acompanhar a sua equipe. "Se eu achar que o lugar é perigoso, eu não posso mandar minha equipe ir se eu não for. É a minha concepção de polícia e é uma forma como eu atuo desde que eu entrei", afirma.

Stobbe destaca que a região é caracterizada por ter muitas ocorrências de assaltos e crimes diversos, o que demanda muito cuidado. Muitos disparos de arma de fogo, segundo o delegado, já passaram muito perto. Certa vez, diante da reação de um criminoso, Stobbe atirou e matou o homem. "Em algumas situações eu lembro de atirar e receber disparos também. Lembro de perseguir, atravessar a BR-386 correndo atrás de criminoso, ele armado atirando e a gente correndo atrás, ele de colete à prova de balas e a nós sem, porque fomos para fazer uma abordagem", relembra.

Para o delegado, os mandados de busca são momentos críticos para a Polícia Civil. Ele lembra o exemplo da morte de um policial civil ocorrida em Montenegro, durante mandado de busca. "O cara que atirou nele estava por trás da porta de madeira da casa e atirou por trás da porta, ou seja, os tiros atravessaram e mataram um e quase mataram outro", conta, reiterando que é uma instrução da academia de polícia sempre identificar-se como polícia.


Costelas e braços quebrados e fraturas no rosto

A manhã daquela terça-feira, dia 2 de maio de 2017, seria mais um dia normal de trabalho para o então chefe da 4ª Delegacia de Polícia Rodoviária Federal (4ª DPRF), Ronaldo Brito (51). Tudo correria comumente se um jovem de 19 anos, vindo de Foz do Iguaçu em um automóvel Honda HRV carregado com 250kg de maconha, e sem carteira de habilitação, não tivesse cruzado seu caminho.

Naquele dia, os colegas de Brito lhe avisaram que o homem havia fugido quando viu a viatura da PRF. "A gente foi para frente do posto para tentar ajudar a viatura que estava atrás do veículo em fuga e quando ele viu a movimentação no posto, fez meia volta e foi em direção a Soledade."

Após entrar em uma viatura para dar apoio e evitar uma possível fuga do criminoso por entre o matagal à margem da BR-386, Brito parou o carro da PRF na rodovia para coibir a passagem de pessoas e evitar que algo mais grave acontecesse durante a perseguição. "Como eu achei que ele ia fugir para o mato, eu tirei o cinto e fiquei esperando. Então ele mirou o carro na minha viatura e tocou de frente. Depois disso eu não lembro de mais nada", relata o policial.

Foram cerca de três meses afastado do trabalho, quatro costelas quebradas, pulmão perfurado, sete fraturas no rosto, septo nasal destruído e um braço quebrado. Após duas cirurgias para colocar sete placas nas fraturas do rosto e para retirar cartilagem da orelha para refazer o septo nasal, Ronaldo Brito voltou ao seu trabalho como policial rodoviário federal, no entanto, ainda sente algumas consequências da provação pela qual passou. "Eu tenho dores no rosto, na cabeça e no braço. Mas comparado ao que poderia ter acontecido, estou ótimo", celebra.

Pai de três filhos e casado com uma colega de PRF, Brito relembra que a esposa estava de serviço no mesmo dia do acidente. "Para a família foi horrível. Quando minha mulher chegou, achou que fosse outro colega e quando foi olhar na viatura era eu."

"Não tenho ódio dessa pessoa"

Em outubro de 2018, mais de um ano depois do fato, o jovem que causou o acidente foi condenado a 13 anos, 11 meses e 12 dias de reclusão em regime fechado pelos crimes de tentativa de homicídio qualificado, tráfico e associação para o tráfico de drogas. "Não tenho ódio dessa pessoa, porque eu acredito que o pior castigo ele já tem que é viver em um mundo de crime. Acho que nada pode ser pior que isso, tu não poder chegar para a tua família e ter a honra e tranquilidade de ter um bom emprego, uma boa profissão, uma boa vida", diz Ronaldo Brito.


Futebol, tumulto e pedrada

Depois de um Gre-Nal em abril deste ano, a BM foi acionada para atender uma ocorrência na Avenida Rio Branco, em Estrela. Fernando Henrique da Silva Rosa (29) era um dos soldados que foi até o local para tentar conter o tumulto. Na ocasião, foram jogadas latas de bebida e pedras contra a guarnição. "A gente sai esperando que algo aconteça, sai preparado para tudo, mas infelizmente há certas situações que não tem como se prevenir, como se precaver, a gente se cuida com tudo, mas o perigo vem de onde menos se espera", declara o soldado.

Embora lembre de pouca coisa após ser atingido na lateral esquerda da cabeça, Fernando tem alguns breves retornos de memória e recorda de ver a pedra que o atingiu no chão. "Segundo o colega que estava comigo, até a viatura eu dirigi por um bom trecho. Depois eu só lembro de acordar na UTI no outro dia." Foram três dias na UTI do Hospital Estrela e dois no quarto. O diagnóstico: traumatismo craniano e coágulo de sangue.

A namorada de Fernando, que também é policial militar, foi quem realizou a prisão do agressor no dia seguinte. Gabriela Spolaor Flores (28) conta sobre o abalo que teve quando soube que o companheiro havia sido agredido e que estava internado. "Para mim foi um choque, porque eu estava esperando encontrá-lo de manhã para ele me passar o serviço", relembra.

Após quatro meses do incidente, Fernando volta a ter sua rotina normal. "O traumatismo eu ainda tenho. Agora estou começando com a academia devagarinho, faz uns dez dias, porque antes eu fazia bastante esporte, corria, inclusive."

 

Como fica o aspecto psicológico

Mariana Zanatta, psicóloga especialista em luto do Centro Profissional Naces, explica que o luto não é apenas conviver com situações de morte com amigos ou familiares. Conviver com situações de violência em sua rotina pode gerar nas pessoas lutos como deixar de fazer coisas que era acostumado a fazer.

"Presenciar essas violências pode gerar o que a gente chama de Transtorno do Estresse Pós-traumático (Tept). Podem desenvolver esse transtorno pessoas que foram vítimas ou pessoas que testemunharam alguma situação de violência - assalto, sequestro, acidente - qualquer evento que envolva morte ou risco de vida", exemplifica Mariana.

De acordo com a psicóloga, os sintomas podem ser a evitação intencional de lugares ou situações, e até mesmo pensamentos, ou seja, coisas que lembrem o evento. "Sentimento como culpa, vergonha, medo, raiva, lembranças recorrentes do evento, coisas que a pessoa não consegue evitar e que acaba lembrando, e até mesmo pesadelos. Essas pessoas também costumam se assustar com mais facilidade que o normal e ter irritações com frequência", destaca. A profissional explica que é fundamental que essas pessoas procurem ajuda psicológica ou médica.

A Brigada Militar possui o Serviço de Assistência Social (SAS), com equipe de saúde composta por vários profissionais, entre eles, psicólogos e psiquiatras, que prestam apoio aos servidores. A Polícia Civil dispõe do Departamento de Assistência à Saúde (DAS), e a Polícia Rodoviária Federal, da mesma forma, oferece atendimento para seus funcionários.

 

Policiais mortos em 2019 

Policiais Militares (5)
Porto Lucena - Um PM em serviço, no cerco a ataque a banco em Porto Xavier.
Montenegro - Um PM em folga, durante assalto.
Porto Alegre - Dois PMs em serviço, abordagem no bairro Partenon, em beco da Rua Paulino Azurenha.
Porto Alegre - Um PM em serviço, abordagem a veículo roubado próximo à praça Guia Lopes.
Policiais Civis (2)
Montenegro - Um policial civil em serviço, durante cumprimento de busca e apreensão de operação policial contra crimes rurais
Pelotas - Uma policial civil em férias, durante assalto

 

 

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