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Marcos geodésicos: importantes e desconhecidos

Ferramenta para determinações geoespaciais, oferecem informações de posicionamento precisas

Créditos: Lucas George Wendt
Na peça, estão gravados um código que remete a altitude, latitude e longitude daquele local - Lidiane Mallmann

Lajeado - Se você olha atentamente para o chão enquanto caminha pela cidade, certamente já deve ter reparado na presença de chapas circulares com inscrições: elas são marcos geodésicos. Um marco geodésico é um ponto fixado no solo - geralmente uma chapa de ferro, junto à uma base de concreto. Nela estão gravadas um código que remete a altitude, latitude e longitude daquele local. No país, foram implantados principalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Exército Brasileiro (EB) e prefeituras.

Ao apresentar informações sobre posicionamento e localização, os marcos são úteis para áreas como Engenharia e Geografia, e atividades de topografia e agrimensura. Eles compõem redes com informações planimétricas, altimétricas e gravimétricas sobre determinada região. Em Lajeado, existem pontos instituídos pelo Exército Brasileiro, mais antigos, e outros pelo IBGE - que, hoje, gerencia o banco de dados de todos os marcos.

A totalidade da rede de informações geodésicas, no Brasil, é chamada de Sistema Geodésico Brasileiro (SGB). O professor do Departamento de Geodésia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Felipe Nievinksi, é quem explica origem dos marcos. "Há mais de 50 anos, no Brasil, haviam vários sistemas geodésicos desconexos, como se fossem uma colcha de retalhos. Hoje em dia, há um sistema unificado, formado de milhares de pontos (também chamados de vértices ou estações), que formam uma rede ou malha ao longo do Brasil."

No solo, cada ponto é materializado por meio de uma estrutura fixa - que pode ser um pino, uma plaqueta ou uma chapa cravada em rocha ou concreto, ou ainda por um marco ou pilar de material durável. "É possível qualquer instituição, empresa ou profissional estabelecer um ponto geodésico e submetê-lo ao IBGE para possível homologação e incorporação oficial." Os pontos são amarrados às localizações anteriores, e formam emaranhado que se torna progressivamente mais denso. "O objetivo é que sempre exista algum ponto por perto quando um profissional precisar amarrar um novo trabalho ao SGB, como por exemplo no cadastro de imóveis para uma prefeitura", explica Nievinski.

Finalidade

O SGB tem uso amplo. Serve como infraestrutura de apoio para a construção de rodovias e hidrelétricas, ferrovias e barragens, demarcação de propriedades, demarcação de áreas indígenas e de proteção ambiental, elaboração de mapas, planos de acessibilidade e pavimentação. "Todos os mapas oficiais do IBGE, do Exército, dos estados e prefeituras, assim como das concessionárias de água, luz e energia são dependentes diretos do SGB", revela o pesquisador. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), por exemplo, exige que os imóveis rurais estejam georreferenciados, como uma forma de evitar a sobreposição de áreas e conflitos com imóveis vizinhos. O SGB também é importante para monitorar a perda de área da praia no litoral, devido à subida do nível do mar. "Nas cidades, o SGB apoia o mapeamento das áreas sujeitas à inundação, quando chove muito."

O município de Lajeado, em 2013, contratou uma empresa para fornecer fotografias aéreas de alta resolução, e um levantamento planialtimétrico de todo o município. O produto do levantamento é fundamental para o planejamento urbano do município e a gestão ambiental. A explicação é do professor mestre em Sensoriamento Remoto e professor da Univates, Rafael Eckhardt. "A empresa contratada instalou uma Rede de Referência Cadastral Municipal (RRCM) contendo 18 marcos instalados fisicamente em vários pontos do município", diz. A rede é importante, uma vez que permitiu a amarração geodésica da localização e da altitude das fotografias aéreas e das curvas de nível, além de possibilitar que novos empreendimentos - indústrias, loteamentos, estradas, parques - tenham a amarração geodésica a partir dos levantamentos topográficos da cidade. "Profissionais das áreas da Engenharia Civil, Engenharia Ambiental, Biologia, Arquitetura podem coletar informações com GPS no campo e integrar com as plantas geradas nas etapas de planejamento e execução de empreendimentos", finaliza.

 

Diferentes métodos

Eckhardt revela outros detalhes sobre os sistemas geodésicos de referência. O Brasil, ao longo da história, já utilizou três sistemas geodésicos diferentes. Até 1985, o denominado Córrego Alegre, de 1985 até 2010, o SAD69. Atualmente, é o Sirgas 2000. Em todos eles, a Terra não é exatamente esférica, mas um pouco achatada, como uma elipse.

"O que varia nesses sistemas geodésicos é o comprimento do raio da Terra no Equador e nos polos - impactando, naturalmente nas coordenadas de localização na superfície do planeta e nos cálculos de área e distância." Eckhardt comenta que existem centenas de sistemas geodésicos elipsoidais em uso no mundo. "Cada país adota o elipsóide que melhor se ajusta à superfície do país, melhorando os cálculos de posicionamento e os cálculos de distância e área." Quando utilizamos o Google Earth, as imagens de satélite visualizadas, as coordenadas de localização, informações de altitude e outras ferramentas de cálculo e de navegação, são referenciadas, por exemplo, ao sistema geodésico WGS84 - utilizado em todo o mundo em razão da popularização do GPS.

 

Preservação

O Exército Brasileiro alerta que, caso haja necessidade de remoção de algum marco, a agência do IBGE mais próxima deve ser contatada, afinal, devem ser preservados. Além da preservação a manutenção de suas condições também deve ser periódica e é assegurada por lei.

Em razão da localização e da quantidade, no entanto, se torna difícil a checagem e a localização dos pontos. Muitas vezes, construções são erguidas sobre pontos, e o vandalismo contribui para que muitos dos milhares de marcos do país tenham sido removidos ou danificados. O Exército, em nota, relata que, em alguns casos, os marcos são arrancados e transportados para outros lugares, especialmente em razão do desconhecimento das pessoas sobre o tema.

 

O Exército

O Exército Brasileiro é um dos agentes federais que integram a Inde. No final do último ano, os dados geoespaciais do Banco de Dados Geográficos do Exército (BDGEx) foram integrados ao catálogo de informações da Inde. No caso específico do trabalho do Exército, os dados, principalmente os altimétricos, são empregados para apoiar as atividades de campo voltadas ao mapeamento e às obras de engenharia executadas. Os marcos foram implantados no passado para suporte a trabalhos cartográficos e obras de engenharia.

 

Lajeado

A última visita do IBGE aos pontos na cidade foi realizada em 2009, pela agência do IBGE local, em razão de uma determinação nacional. Na época, dos 13 pontos catalogados na cidade, quatro não foram encontrados. Outros dois não foram construídos. Sete estavam em bom estado de conservação. No Rio Grande do Sul, são cerca de 5,2 mil pontos que integram a malha nacional.

 

A legislação

O SGB compõe a Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais (Inde), que inclui, também, outros dados geográficos e censitários, como o limite de cada município. Organizada pelo Governo Federal, a Inde foi instituída pelo Decreto Nº 6.666 de 27/11/200. Surge como uma tentativa de catalogar as informações geoespaciais de todo o território do país. É definida com um conjunto integrado de tecnologias e políticas; mecanismos e procedimentos de coordenação e monitoramento, e também de padrões e acordos, necessários para facilitar e ordenar a geração, o armazenamento, o acesso, o compartilhamento, a disseminação e o uso dos dados geoespaciais de origem federal, estadual, distrital e municipal. Participam da Inde diversos atores nacionais - entre elas, o IBGE e o Exército.

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