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Estradas andam na contramão da demanda de infraestrutura

Rodovias respondem pela principal forma de deslocamento da produção, mas mais da metade delas tem algum tipo de problema

Créditos: Matheus Aguilar
- Lidiane Mallmann

Vale do Taquari - Em um país em que o maior percentual da carga transportada depende das rodovias, a qualidade da malha viária é fator determinante para a definição dos custos. A falta de um planejamento sistêmico e de longo prazo acarreta usos ineficazes dos modos de transportes, congestionando alguns e permitindo que outros tenham capacidade ociosa. Um reflexo disso é o elevado desgaste das rodovias pelo intenso uso do modo rodoviário para o transporte de cargas.

Uma das conclusões do Anuário do Transporte da Confederação Nacional do Transporte (CNT) é que a qualidade e o crescimento da malha rodoviária não acompanham a demanda de infraestrutura para o escoamento da produção nem para o deslocamento de pessoas. A frota de veículos aumentou 194,1%, de 2001 para 2016, mas as rodovias continuam com graves problemas de qualidade, comprometendo a segurança. No ano passado, mais da metade dos trechos avaliados pela CNT apresentaram problemas. Do total da malha, 1,7 milhão de quilômetros, apenas 12,2% (210.618,8 quilômetros) têm pavimento.



De acordo com o presidente da CNT, Clésio Andrade, o anuário é um instrumento que exerce papel estratégico na elaboração de um sistema de transporte eficiente. "Permite maior agilidade a estudos e análises que auxiliam no planejamento, na definição da aplicação de projetos, recursos e na execução de obras", diz.

Coordenador do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) e diretor-presidente da Sultepa S.A., Ricardo Portella Nunes demonstra preocupação com a qualidade da malha rodoviária do país. "Em 2017, tínhamos uma malha relativamente boa, com 67% em boas condições, 21% em estado regular e 12% em situação ruim ou péssima", descreve. Segundo ele, ainda para 2018 a perspectiva é de decréscimo na qualidade. A estimativa apresentada é de que 43% das rodovias federais tenham boa qualidade do pavimento, enquanto 41% será considerada regular, 12% ruim e 4% das estradas pavimentadas estarão em péssima situação até o fim do ano.

Segundo dados do Anuário do Transporte da Confederação Nacional do Transporte (CNT), 48,3% dos trechos avaliados no Brasil têm problemas no pavimento. A sinalização é deficiente em 51,7% do total. A geometria apresenta falhas em 77,9% das rodovias do país.

Condições da malha no Rio Grande do Sul
Em 2017, a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) avaliou 8.818 quilômetros de estradas no RS. Os dados foram compilados na 21ª Pesquisa CNT de Rodovias, que revela que 62,2% (5.489 quilômetros) da extensão avaliada apresenta algum tipo de deficiência no estado geral (classificação regular, ruim ou péssimo); 37,8% (3.329 quilômetros) tiveram classificação ótimo ou bom. O estado geral inclui a avaliação conjunta do pavimento, da sinalização e da geometria da via. A pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes percorreu 8.818 quilômetros no Estado. Em todo o Brasil, foram 105.814 quilômetros analisados.


A Pesquisa CNT de Rodovias classifica a pavimentação como regular, ruim ou péssimo em 46,4% da extensão avaliada no Rio Grande do Sul. Em quase metade do trecho avaliado, 49,3% apresentam superfície do pavimento desgastada. O tipo de rodovia (pista simples ou dupla) e a presença de faixa adicional de subida (3ª faixa), de pontes, de viadutos, de curvas perigosas e de acostamento estão incluídos na variável geometria da via. A pesquisa constatou que 77,8% da extensão pesquisada não tem condições satisfatórias de geometria. O Estado tem 92,9% da extensão das rodovias avaliadas de pista simples de mão dupla.

O estudo ainda aponta que há problemas de sinalização em 58,3% da extensão avaliada. Nos trechos onde foi possível a identificação visual de placas, 26,3% apresentaram placas desgastadas ou totalmente ilegíveis.

Distribuição das rodovias
O Rio Grande do Sul tem 17.295,08 km de rodovias. Desse total, 11.522,01 quilômetros são de responsabilidade estadual, enquanto 5.773,03 quilômetros pertencem à rede federal. Das estradas existentes no estado, 21,63% não são pavimentadas. Principal via da região, a BR-386 teve 465 quilômetros analisados. O estado geral da rodovia é considerado regular pela pesquisa da CNT. O pavimento é bom, enquanto sinalização e geometria são classificados como regulares. Estimativa do Plano Estadual de Logística e Transporte (Pelt-RS) é que 5,27% do total da carga transportada no Rio Grande do Sul passa pela BR-386, ou 12.088,30 toneladas. Ainda no Vale do Taquari, a ERS-287 é outra via com fluxo considerável, registrando outros 2,47%, ou 5.653,30 toneladas.

Utilização
Conforme o relatório executivo do Plano Nacional de Logística (PNL), apresentado pela Empresa de Planejamento e Logística (EPL), o modal rodoviário deveria ser preferencialmente utilizado para transportar cargas de pequeno e médio volume a pequenas distâncias, tendo em vista a agilidade e a dinamicidade de seus componentes, assim como a gama de rotas alternativas propiciadas pelas rodovias. Na década de 1990, foi iniciado no Brasil o processo de concessões de rodovias federais a operadores privados. A iniciativa teve como objetivo reduzir os impactos negativos sofridos pela má qualidade das estradas, fruto das dificuldades que o governo federal, à época, possuía em gerenciar os investimentos e executar seus projetos naquele período.

Dependência

O transporte de cargas utilizando o modal rodoviário movimenta 65% do total brasileiro. No Rio Grande do Sul, a dependência é ainda maior: 88% do que circula no Estado utiliza rodovias. Situações que explicam a crise de abastecimento percebida durante a paralisação nacional dos caminhoneiros, no mês de maio.
O desgaste das estradas no país eleva o valor de produtos. A estimativa é que os custos logísticos no Brasil representam 11,7% das receitas das empresas. O baixo percentual de rodovias pavimentadas, 12%, tambem contribui para o encarecimento da distribuição.
Estudos como o Plano Estadual de Logística e Transporte do Rio Grande do Sul (Pelt-RS) e o Plano Nacional de Logística (PNL) apontam caminhos possíveis para melhor utilização de outros modais. E, consequentemente, aumentar a competitividade nacional.

Comparativo entre as malhas rodoviárias Rio Grande do Sul e Brasil em quilômetros
Rio Grande do Sul
Malha total: 156.852
Porcentagem pavimentada: 7,24%
Malha federal: 5.945 (4%)
Malha estadual: 11.306 (7%)
Malha municipal: 139.601 (89%)

Na próxima reportagem da série, confira as previsões de investimento para otimizar o deslocamento da produção nacional e gaúcha.

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