Direção do Castelinho teme fim do curso de magistério

Um dos maiores colégios públicos da região vê reduzida a procura pelo Normal, o que coloca em xeque a abertura de turmas

09/02/2018 11:02
Direção do Castelinho teme fim do curso de magistério /Thaís Presser

Vale do Taquari - O desinteresse pelo Normal tem preocupado algumas equipes diretivas de escolas da região. O tradicional curso de magistério habilita para atuar com Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental. É o caso do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, de Lajeado, que há cerca de dez anos registra um decréscimo nas inscrições. "No início, tínhamos turmas com 50 alunos, a procura era absurda. Hoje, há nove matriculados para ingressar no 1º ano. Somando o 2º e 3º anos, são 39", conta a diretora Evenize da Costa Pires, que salienta que as inscrições seguem abertas. Este cenário põe em debate a continuação da tradicional opção de Ensino Médio profissionalizante.

Implementado no maior colégio da rede estadual da região nos anos 1990, o magistério já formou mais de 800 alunos. Evenize ressalta que os números falam por si só. "A pequena quantidade de interessados acendeu um alerta: o Curso Normal no Castelinho pode terminar. Isso ocorre devido à legislação que decreta que cada turma deve ter no mínimo 20 alunos. Nós temos até agora nove, ou seja, dessa forma não poderemos abrir uma turma. Temos até o início de março para resolver." Além da escola lajeadense, outras três do Vale do Taquari oferece a modalidade - os institutos estaduais de educação Pereira Coruja, de Taquari; Estrela da Manhã, de Estrela; e Monsenhor Scalabrini, de Encantado. Nesta última, que tem 51 turmas formadas, a situação é semelhante à do Castelo Branco. Cerca de 80 alunos estão inscritos, e são divididos nas turmas de 1º, 2º e 3º ano, mas . a diretora, Rosemeri Radaelli, frisa que a busca pela modalidade diminuiu. Ela acredita que essa redução ocorre devido à pouca valorização da categoria. "Temos baixos salários e os governantes não nos dão valor."

Desafios

Segundo a diretora Evenize, que já lecionou para turmas do Normal, o contexto geral não favorece a formação de professores. "O desinteresse do governo e a desvalorização salarial são aspectos muito negativos. Além disso, temos que considerar o ambiente de sala de aula, que muitas vezes é desafiador. Percebemos, também, que muitos adolescentes chegam com lacunas na aprendizagem, e, dessa forma, enfrentam dificuldades. O nível de exigência é alto, pois é nosso compromisso formar profissionais completos. Para seguir, é necessário comprometimento e persistência, que alguns não conseguem oferecer."

Compromisso

A titular da 3ª Coordenadoria Regional de Educação, Greicy Weschenfelder, reforça que é importante conclamar para a adesão, para apostar na carreira docente. "Assim, estamos chamando as pessoas para um compromisso, para uma missão, para uma profissão muito nobre que é esta de ensinar", enfatiza. Para ela, o reconhecimento deve inicia-se pelo cidadão. "Começa pela gente, mesmo. Nós temos que valorizar o magistério. E se alguém tem este perfil, pensa que consegue, por meio de conhecimento, e gostaria de compartilhar isto com outras pessoas, de construir uma sociedade melhor, então, este é o desafio", convoca. A coordenadora afirma que este não é o momento de pensar na possibilidade de fechamento do magistério no Castelinho. "Vamos convidar, continuar construindo a história do Curso Normal do Castelo, que é uma escola que tem uma direção proativa, que pensa na sociedade." 

Profissão

O magistério é um "plus" para aqueles que pensam em uma graduação. "Podemos dizer que o Curso Normal é essencial para todas as áreas de licenciaturas. Pedagogia é um grande exemplo", destaca a diretora do Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, Evenize da Costa Pires. Ela lembra ainda que a formação é requisito em muitos concursos.

No Castelinho, o currículo tem três anos de aula presencial, mais meio de estágio. As disciplinas são gerais - área da natureza, linguagem, matemática e humanas - e específicas, compostas pelas didáticas. "Os alunos têm carga horária diferente dos que fazem o Ensino Médio comum. O número de aulas é bem maior." Hoje as atividades para o 1º ano são no turno da tarde, e para o 2º e 3º, pela manhã.

A diretora convida os jovens que ingressarão no Ensino Médio para conhecer a proposta pedagógica. "Fazemos um apelo para que o pessoal nos visite. Temos uma estrutura completa para oferecer o que há de melhor no ensino. E faremos o possível, traçaremos estratégias, para que a modalidade não seja extinta."

Em Taquari e Estrela, outra realidade

O Instituto Estadual de Educação Pereira Coruja, de Taquari, conta com o formação de magistério desde a criação da Escola Normal Regional Pereira Coruja, em 1952. Desde então, formou 62 turmas. Hoje são 69 alunos matriculados nas turmas de 1º, 2º e 3º ano - e 20 inscritos para estágio supervisionado. A diretora Lisa Calçada Martins explica que até foi percebida uma diminuição na procura em anos anteriores. Mas, em 2018, o panorama é outro. "Contamos com duas turmas de alunos matriculados no 1º ano do Normal, o que acreditamos que seja fruto da intensa campanha realizada pela coordenação do curso e pela direção da escola, com os alunos dos 9º anos. Eles fizeram a apresentação para estudantes das escolas de Ensino Fundamental, com recepção pelos nossos normalistas, mais distribuição de material de divulgação, entre outras ações."

No Instituto Estadual de Educação Estrela da Manhã, de Estrela, 40 turmas de normalistas de formaram, em 18 anos de existência. Hoje, 198 estudantes estão matriculados, em seis turmas. De acordo com a diretora Ângela Bitencourt Zimmermann, a busca por esta forma de ensino tem aumentado ano a ano. "Isso se justifica por três motivos principais. Em primeiro lugar, 100% dos nossos são absorvidos automaticamente pelo mercado de trabalho, logo após a formatura. Em segundo, aqui eles têm aulas de manhã e à tarde, com um preparo mais intenso em sua base curricular. E, por último, há um número considerável de estudantes que, ao terminarem o Ensino Médio Curso Normal, passam em universidades privadas, estaduais e federais, seguindo com seus estudos."

Nova experiência

João Felipe Gasparotto (19) se forma na semana que vem. A busca por uma experiência nova foi o motivo do interesse do morador de Marques de Souza pelo magistério. "Sempre tive muito envolvimento na escola em que estudei no Ensino Fundamental, como a participação no Grêmio Estudantil. Tudo relacionado ao colégio me atraía. Tenho uma cunhada professora e amigas que faziam o Curso Normal, então pensei que seria um novo horizonte. Apesar das dores que a Educação sofre, nunca desisti."

Gasparotto declara que para cursar a modalidade é preciso dar a cara a tapa. "Fazer o Curso Normal é passar por uma peneira, é desafiador. Aqueles que não são apaixonados pela área não seguem adiante." Ele atribui esta característica à pouca procura pela formação, além de pontuar a desvalorização do setor. "Até penso em seguir adiante nos estudos, fazer uma licenciatura. No entanto, com o atual cenário, tenho medo de me frustrar, então este é um projeto que vai ficar para o futuro."