Geral

Avanço da medicina não cura preconceito

Medo da rejeição afasta as pessoas do diagnóstico precoce da Aids

Créditos: Rita de Cássia
- divulgação

Lajeado - A partir deste sábado (1º), Dia Mundial de Combate à Aids, o Serviço de Assistência Especializada em IST/Aids (SAE) Lajeado passa a oferecer a Profilaxia Pré-Exposição (PREP), com a distribuição do medicamento Truvada. Até então, só era realizado em Porto Alegre. A PREP é voltada para pessoas negativas para o HIV, mas que fazem parte de um grupo de maior vulnerabilidade: casais em que um é soropositivo e o outro, soronegativo; homossexuais; travestis e trabalhadores do sexo. Os interessados devem procurar o SAE para se cadastrar no programa, fazer os exames necessários e passar pela avaliação médica.

Em geral, somente municípios com maior população oferecem o serviço. Do interior do RS, Lajeado será um dos primeiros, graças ao grande número de testes rápidos realizados na cidade e região - vários municípios do Vale recebem apoio do SAE Lajeado. O local tem hoje 1.587 cadastrados - 870 homens e 717 mulheres. Destes, 897 são de Lajeado. São pessoas que estão em tratamento ou em algum momento procuraram o serviço. Desde 1999, quando o SAE Lajeado foi implantado, registrou 209 óbitos decorrentes de casos de Aids. Destes, 143 homens e 64 mulheres. Em 2018, são 12 óbitos, sendo nove homens e três mulheres. Há dois anos não registra nenhum caso de transmissão vertical, ou seja, quando a doença passa da mãe para o bebê.

A ideia de um remédio que ajudasse na prevenção da Aids seria impensável quando a doença foi identificada, em 1981. De lá pra cá, a medicina avançou, mas a doença ainda precisa ser desmistificada. Não apenas no que se refere ao uso do preservativo, mas no preconceito que ainda é forte, na consciência de que qualquer um está sujeito a contrair o HIV e que única alternativa para evitar é a prevenção.

Isso é muito presente no dia a dia da assistente social e coordenadora do SAE, Waldirene Bedinoto, que atua há 18 anos no serviço, criado há 19. A equipe é formada por enfermeira, três técnicos de enfermagem, uma farmacêutica e quatro médicos. "A grande dificuldade é a aceitação, por medo do preconceito que a pessoa vai sofrer. Por isso, é tão importante fazer um trabalho humanizado e de extrema responsabilidade. São inúmeras histórias de pessoas para quem entregamos medicação na rua ou até em casa."

O secretário da Saúde de Lajeado, Tovar Musskopf, também alerta para a quebra de tabus. "Todos precisam ter consciência de que o uso do preservativo é importante, não só para proteger as outras pessoas, mas acima de tudo cada um proteger a si próprio", afirma. O serviço do SAE é oferecido pela Secretaria da Saúde de Lajeado, com recursos municipais, estaduais e federais. "A prevenção é sempre o melhor remédio e quando identifica-se precocemente uma situação, a chance de cura ou tratamento eficaz é amplamente maior", destaca o titular da 16ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), Ramon Zuchetti.

 

Destaque

Em Lajeado e no Vale do Taquari, o Serviço de Assistência Especializada em IST/Aids - SAE Lajeado e as unidades de saúde são responsáveis pelo acompanhamento de pacientes e indicações de tratamento. Além disso, realizam um trabalho forte na questão de diagnóstico precoce. Foi o município também que levou a região ao primeiro lugar no Rio Grande do Sul, com o maior número de testes rápidos - HIV, sífilis e hepatites - na área de abrangência da 16ª Coordenadoria Regional da Saúde. Somente entre janeiro e agosto deste ano, foram realizados 13 mil testes de HIV nos 37 municípios atendidos pela 16ª CRS. Destes, 5.946 referentes à testagem realizada pelo município de Lajeado, totalizando 45%.

 

Tratamento

Conforme o titular da Sesa, Tovar Musskopf, o SAE é um atendimento especializado, com profissionais que recebem treinamentos constantes e seguem orientações do Ministério da Saúde. E uma vez que essa área da saúde vem tendo avanços, as equipes locais recebem as atualizações. Com uma equipe multidisciplinar qualificada consegue-se fazer o melhor tratamento ao paciente. "Os medicamentos que há dez anos provocavam muitos efeitos colaterais e que eram três ou quatro por dia, hoje são em dose única e praticamente não tem mais esses efeitos. Por isso, os pacientes com HIV conseguem ter uma vida normal. Eles tomam os remédios assim como quem tem diabetes ou hipertensão. Além disso, o diagnóstico precoce favorece o tratamento, pois quanto antes começar poderá evitar sequelas e agravos da doença, prevenindo a transmissão para outras pessoas."

 

Sexo feminino, 36 anos

"O contágio aconteceu quando eu estava namorando. O rapaz não sabia que tinha HIV. Quando consultou e teve a suspeita, fomos logo fazer o teste. O dele deu positivo. O meu deu negativo, no primeiro. Dias depois, repeti o exame e veio a confirmação. Fiquei abalada e achando que seria o fim. Na época, continuamos o namoro e me senti amparada por ele. Não contei para minha família. Só uma amiga sabe. Desde 2015, seguro a barra sozinha. Eu achava que seria impossível acontecer comigo, porque nunca fui 'namoradeira'. Tive pouquíssimos namorados e sempre me cuidei, confiei numa pessoa, mas aconteceu.
Minha vida é normal, como se não tivesse nada. Trabalho, estudo, saio e tenho amigos. Mas mantenho meu silêncio sobre o problema. No dia a dia, às vezes acontece de ouvir algo sobre a doença. Falam como se fosse a pior coisa do mundo, então tento sempre esclarecer de alguma forma que não é como pensam, e que tem um caso aonde menos imaginam. Há cinco meses procurei ajuda psicológica, pois desde que terminamos o namoro não conseguia me envolver com ninguém. O medo é maior de me relacionar, me apegar e ter que contar mais tarde sobre o problema. Tenho medo de ser rejeitada e abandonada. A terapia me ajuda muito, estou mudando aos poucos e me aceitando mais. Estou vivendo dias melhores."

 

Dezembro Vermelho

No mês em que se discute o combate à Aids, o SAE reforça a oferta de testes rápidos para a comunidade. Neste sábado, ocorre a primeira ação. Uma tenda da saúde será montada em frente à Caixa Federal na Rua Júlio de Castilhos, disponibilizando serviços para a comunidade, das 8h às 17h. Durante a semana, cada Estratégia de Saúde da Família fará uma atividade na região de sua unidade, focando no tema prevenção e transmissão; além de testes rápidos. Outras atividades estão programadas para este mês. Na segunda-feira, a unidade do Bairro São Bento realizará testes rápidos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Já no dia 13, as unidades do Montanha realizam ação nas imediações do Supermercado Imec.
Em Estrela, a Secretaria da Saúde promoverá a realização de exames rápidos e gratuitos da doença foco e outras enfermidades, além da distribuição de material informativo e preservativos à população. A ação será na unidade da Avenida Rio Branco, 1.127, das 8h às 16h, sem fechar ao meio-dia. Executada pelo Serviço de Assistência Especializada (SAE) HIV/Aids, a atividade fará exames rápidos de HIV, hepatite B e C e sífilis, além de coleta para exames citopatológicos de colo uterino (pré-câncer) e aferição de pressão. O SAE em Estrela funciona em parceria entre o município e o Governo Federal, atendendo regionalmente pacientes na unidade, das 7h às 14h, de segunda a sexta-feira, com exames também realizados gratuitamente.

 


Saiba mais

As pessoas interessadas em receber o medicamento Truvada devem se dirigir ao SAE, na Rua Alberto Torres, 560, Centro de Lajeado para ser integrado ao programa. Mais informações pelo telefone (51) 3982-1131. "Tão importante quanto a medicação é o uso do preservativo porque também previne as outras infecções sexualmente transmissíveis", lembra a coordenadora do SAE, Waldirene Bedinoto.

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