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O que a vitória de Bolsonaro nos diz sobre o Brasil?


Os inegáveis erros do PT enquanto governo, tanto no envolvimento com a corrupção quanto na incapacidade de conduzir a economia em meio à crise, produziram o fenômeno do antipetismo: "qualquer coisa, menos o PT". Esse espírito produziu o clima político favorável ao impeachment de Dilma Roussef, processo que contou fortemente com a colaboração de seu vice, Michel Temer, que se apresentava como solução para os problemas causados pelo PT. Como o novo governo se mostrou incompetente e afundado até o pescoço em casos de corrupção - o próprio presidente terá que enfrentar diversos processos assim que passar a faixa -, o antipetismo se converteu em antipolítica. Ou seja, a origem dos problemas do país são os políticos - que, vejam só, são escolhidos por nós mesmos.

Assim, a corrupção ligada ao principal partido de esquerda do país e a instabilidade das instituições democráticas foram o combustível para o questionamento da política como forma de condução da vida e, com ela, de diversos outros valores liberais e progressistas, como os direitos humanos, os movimentos sociais, a liberdade de expressão. Como consequência, vimos crescer a relativização da violência praticada pelo Estado no período autoritário de 1964 a 85.

Nesse cenário, abre-se espaço para que alguém se lance como "contra tudo o que está aí". Estranhamente, acaba se destacando alguém que está aí há quase 30 anos, e cujas ações como político não foram muito além de declarações exaltadas em favor da tortura e da guerra civil como solução para o país e discussões e agressões a colegas de legislativo. Elege-se presidente ameaçando os adversários políticos e até as instituições. Questionou desde o início o sistema eleitoral e um de seus filhos ameaçou o STF. A sociedade brasileira decidiu que, em vez de escolher o aprimoramento das instituições democráticas, para que sejam mais transparentes e possam, entre outras coisas, combater a corrupção, é melhor apostar em alguém que encarnaria uma moral superior. Com a arrogância que o presidente eleito tem demonstrado desde sempre e com o viés autoritário da sua postura política, menos acesso a sociedade terá aos meandros do poder. Mais do que nunca, precisaremos estar vigilantes.


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