Colunistas

O desafio de escrever


A cada 15 dias me vejo diante da tarefa de escrever um texto a ser publicado aqui neste espaço. São apenas dois mil caracteres, logo, algo que poderia ser feito em meia hora. Porém, o que é possível dizer de relevante nesse espaço? O que poderia produzir algum interesse e reflexão em leitores que desconheço, com tantas origens, idades, bagagens culturais diferentes? Geralmente, penso sobre fato importante dos dias recentes, já que essa coluna se encontra em um jornal diário. Muitas vezes, são as redes sociais de internet que me pautam, com seus temas do momento, que mudam de uma hora pra outra. Ainda assim, o que dizer que já não tenha sido dito - se é que isso é possível hoje em dia?

Diante dessa pergunta, a página em branco do editor de texto - tema já abordado por alguns escritores, que falaram sobre a folha branca de papel - se torna fonte de angústia. Essa angústia muitas vezes aumenta quando se começa a escrever. Quando a gente começa a colocar no papel/editor de texto o que está na nossa cabeça, nota que aquilo que a gente quer dizer nem sempre é o que consegue dizer. Como dizer aquilo que só eu sei ou que só eu sinto de forma que outras pessoas entendam e possam manter um mínimo de diálogo com meu pensamento? A escrita é essa ferramenta que permitiu ao ser humano objetivar seu pensamento e, assim, confrontar-se com ele de uma maneira concreta. Por meio da escrita, posso ver, apagar, mudar de lugar as ideias que pareciam fazer muito sentido quando estavam na minha cabeça, mas que talvez não façam tanto sentido para quem vai ler. A necessidade de compartilhar o que é só meu é que me obriga a sair de mim e a tentar me conceber como leitor do meu próprio texto. Por isso, dizia um professor meu, escrever não é apenas colocar num texto aquilo que sei ou sinto, como se aquilo que sei ou sinto já estivesse pronto. O que sei ou sinto se constrói também no processo de escrita.

Paro agora e retorno aos dois parágrafos que escrevi até aqui. Não sei se consegui dizer alguma coisa. Tenho que entregar o texto. O tempo é inimigo ou é um mal necessário, que nos obriga a dizer alguma coisa, a romper a inércia daquela página em branco? Já se foram meus dois mil caracteres. Algo foi dito de interessante? O tempo acabou.


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