Economia

Manifestação pela cadeia leiteira reúne mais de mil em Teutônia

Pressão organizada resultou em agenda de negociação com a Lactalis do Brasil. Nova reunião foi marcada para dezembro. Frente ainda busca avanços com Estado e União


- Luísa Schardong

Vale do Taquari - A rotina de Lisandra Neitzke Kruschardt (42) começa cedo na pequena propriedade da família, no interior de Canguçu, distante 294 quilômetros de Lajeado. Antes das 6h, a primeira ordenha das nove vacas leiteiras já está concluída. Depois, o rebanho é levado para pastagem, enquanto ela limpa a resfriadeira e a estrebaria, para, então, verificar o armazenamento do leite. Até as 19h, o processo recomeça. Por dia, 200 litros de leite são produzidos. É assim 365 dias por ano, sem folga.

O processo de produção não é barato - além dos investimentos em ordenhadeira, resfriador, silagem de ração e outras adequações sanitárias, a família ainda comprou novilhas inseminadas. "Mas é tudo em vão, já que nada é valorizado. Vamos deixar isso pra quem?", desabafa. Ela se refere à sucessão familiar, ameaçada pela crise da cadeia.

"Meus avós passaram a propriedade para os meus pais, que a deixaram para mim. Minha família toda era do setor leiteiro. Não vejo futuro para os meus filhos seguindo nesse negócio." Nem eles. Com 16 e 20 anos, os filhos de Lisandra planejam caminhar para o plantio de soja. "Termina uma tradição, um modo de vida. A nossa comunidade também não vai ter acesso a um leite de qualidade. É triste."

Além do futuro da próxima geração, o orçamento da casa também foi comprometido. "Ano passado, recebia R$ 1,70 pelo litro. Hoje, mal chega a R$ 0,83. Não cobre os custos."
Aos 68 anos, Irineu Luiz Schuck também não tem mais esperança em ver o filho de 30 anos sucedê-lo no campo. Ele mora em Santa Cruz do Sul, na localidade de Cerro Alegre, onde produz 600 litros por dia. "É o pior cenário que já vivi nos meus 20 anos de trabalho. Eu pago para produzir. Ninguém aguenta mais isso. Hoje pode estar barato para o consumidor, mas logo vai faltar leite na casa das pessoas, pois ninguém mais vai querer fazer", resume.

Com propriedade em Venâncio Aires, em Grão do Pará, Eduardo Luiz Stertz (37) fornece 500 litros por dia para indústrias, mas não recebe contrapartida suficiente. Noivo, ele vê o futuro de toda sua família (pais e irmão) em suspenso. Para pagar o rancho do mês e contas básicas, ele trabalha meio turno na cidade. "É um dilema: ou absorvo e aguardo melhorar, ou abandono. O problema é que a agricultura, de um modo geral, está muito prejudicada. Não tem pra onde fugir e ninguém sabe bem o que fazer", lamenta.



Protesto
Angustiados e empunhando bandeiras, os três pequenos produtores rurais se uniram a uma mobilização, ontem, em frente à multinacional francesa Lactalis do Brasil, em Teutônia. A indústria, que rotula para as marcas Batavo, Elegê e Parmalat, e é uma das maiores captadoras de leite do Rio Grande do Sul, foi palco de um dos pontos de movimentação escolhidos pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS) para protestar contra a crise do setor. À noroeste do Estado, em Palmeira das Missões, 1.200 pessoas protestaram em frente a Nestlé. Em Teutônia, foram 1.500 pessoas do Vale do Taquari e região.

A movimentação começou às 9h e seguiu até 13h50min, aproximadamente, impedindo a entrada de caminhões - pelo menos 70 veículos deixaram de ingressar até o final da manhã. O clima ficou tenso depois que a Fetag e uma comissão de representantes das regionais entraram na fábrica para negociar agendas com a Lactalis.

Em ato simbólico, quatro galões de leite foram despejados no chão. No microfone, trabalhadores contavam sobre as dificuldades e gritavam palavras de ordem. Três tratores foram acorrentados aos portões da entrada principal e tiveram os motores ligados em intervalos regulares. Embora não tenham sido arrancados, os produtores o retiraram, à força, dos trilhos e se instalaram no pátio da empresa para ouvir o resultado da audiência e deliberar em assembleia. Antes de deixarem o local, os manifestantes recolocaram o portão e ajudaram a reorganizar o local.

Próximos passos
Presidente da Fetag, Carlos Joel da Silva explica que o objetivo da reunião com a Lactalis foi abrir caminhos para negociar melhores condições para o produtor - aí entram definições de prazos para pagamento, volumes de produção e fim da importação do leite uruguaio. "O mesmo movimento feito aqui, de sentar com a Lactalis, será feito com as demais fábricas. É mais uma estratégia de diversas frentes. A empresa vai levar a proposta para a direção", diz.

O próximo encontro do grupo ficou marcado para o dia 5 de dezembro, na sede em Porto Alegre. O Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat) também participará do encontro. "O prazo, portanto, é que até dia 5 as coisas evoluam. Se não melhorar, vamos voltar pra dentro das empresas sem data pra sair e cada produtor vai trazer mais cinco consigo. Ou seja, a ideia é trabalhar um contrato a nível de Sindilat, que sirva de modelo para todas as empresas que atuam no RS."
Antes, o Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat) reúne, na próxima terça-feira, às 9h, representantes municipais e entidades para discutir demandas regionais. Já na quarta-feira, outra agenda está prevista na Assembleia Legislativa.



Por que o setor está em crise?
A competição desigual entre produtores rurais e a importação do leite uruguaio é o principal motivador da crise. "A cadeia está quebrando porque o produtor não tem remuneração suficiente - alguns ganham R$ 0,60 pelo litro. O custo de produção no RS é de R$ 0,95 - pagamos para produzir", diz o presidente da Fetag. "Empresas recebem incentivo fiscal para se instalar aqui e ainda compram leite em pó de fora, em vez de pegar com o pequeno produtor. Eles geram emprego e renda fora do país. Não podemos concordar com isso. Estamos dizendo ao governo do Estado que essas empresas têm que ser cortadas dos incentivos."

A expectativa é que a União barre, ou, no mínimo, crie cotas para limitar a entrada de leite uruguaio. "Se quer manter livre comércio com Mercosul precisa criar políticas que garantam a sustentação do produtor. É o que estamos pedido." O Governo Federal, no entanto, alega que não tem dinheiro para comprar o excedente e se nega a rever a política com o vizinho. "Isso é vergonho para um país do tamanho do nosso porque mostra que não se tem planejamento ou controle de estoque, que é o que garante a estabilidade do mercado e o bom preço para o consumidor."

Os reflexos já são sentidos aqui. Segundo Luciano Carminati, representante da região na Fetag, mais de 1.800 famílias abandonaram a produção leiteira no Vale do Taquari desde o início do ano. "A situação é desesperadora. Precisamos reverter esse cenário", alerta.

Entre as demandas do Grupo de Trabalho do Leite estão a redução das taxas de juros aos produtores; a investigação, pelo Ministério Público Federal, das importações do Uruguai, em razão dos indícios de triangulação; a aquisição pelo governo federal de 50 toneladas de leite em pó (para limpar o mercado); a implantação urgente do sistema de cotas de importação com o Uruguai; a criação de linhas de crédito com juros subsidiados em nível estadual e federal; a retomada das atividades do Instituto Gaúcho do Leite; e a capitalização do Fundoleite.

A manifestação
9h: início do protesto
11h15min: grupo inicia negociações com a empresa; do lado de fora, espera
11h30min: produtores estacionam tratores em frente à fabrica e acorrentam portão
11h40min: em ato simbólico, manifestantes despejam leite
12h: grupo aumenta pressão e liga tratores, ameaçando invadir a empresa
12h30min: após espera pela reunião, produtores tiram portão dos trilhos
12h35min: grupo invade pátio da fábrica
12h55min: presidente de Fetag retorna da negociação e inicia assembleia
13h30min: produtores realocam portão e deixam o local pacificamente

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