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A produção social da desigualdade

Aqueles que como eu viveram os anos 1980 e 90 aqui no Brasil sabem que estas políticas não são novas. O receituário neoliberal já data de algumas décadas


 

É comum falarmos que todos somos iguais perante a lei. Que buscamos direitos iguais, ou que almejamos ser uma sociedade igualitária. Ocorre que na realidade esta igualdade é difícil de ser conquistada, seja porque a estratificação social com concentração da renda nas mãos de poucos na América Latina é histórica, seja porque na conjuntura atual algumas correntes políticas e econômicas como o neoliberalismo veem a desigualdade como um valor positivo para o funcionamento na sociedade. Deste modo, medidas de redução de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre grupos empresárias, bem como o aumento do desemprego e a criação de um exército de desempregados dispostos a aceitar qualquer salário e condições de trabalho, enfraquecimento dos sindicatos, flexibilização dos direitos trabalhistas e previdenciários, etc... passam a ser vistos como políticas necessárias para o bom funcionamento do capitalismo.

Aqueles que como eu viveram os anos 1980 e 90 aqui no Brasil sabem que estas políticas não são novas. O receituário neoliberal já data de algumas décadas. Se consolidou com o chamado Consenso de Washington que indicava medidas necessárias para se conquistar a estabilidade econômica na América Latina. Os efeitos destas políticas foram extremamente perversas no nossa região, tanto que a década de 1980 ficou conhecida no Brasil como a década perdida. Nos demais países da região os efeitos não foram diferentes. Desemprego em massa, retirada de direitos, repressão violenta às manifestações populares foram algumas das consequências destas políticas. Um bom quadro do período pode ser visto no filme de Silvio Tendler, "Por uma outra globalização" que pode ser encontrado em livre acesso no Youtube. Neste filme, a partir da trajetória de vida do geógrafo e intelectual negro Professor Milton Santos, são mostrados os efeitos perversos do que chama de processo de "globalitarismo" nos países latino americanos.

A desigualdade, deste modo, não é fruto de uma fatalidade, nem oriunda de alguma vontade divina, mas ela é produzida socialmente por políticas de governo que beneficiam determinada parcela da população em detrimento da grande maioria. Sem o engajamento do Estado na redução das desigualdades sociais e econômicas a busca por uma sociedade menos injusta se torna um devaneio. A precarização da educação, da saúde e consequentemente das condições gerais de vida da população acabam também funcionando como estratégias de manutenção e reforço das desigualdades. No cenário atual no qual estamos testemunhando o aumento da violência, a redução do financiamento para o ensino superior, precarização dos demais níveis de educação, aumento do desemprego e precarização dos serviços de saúde, talvez tenhamos que nos perguntar até que ponto estas políticas representam efetivamente a vontade da maioria, ou apenas de alguns grupos instalados no poder.

 


Daniel Granada

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