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Shakespeare revisitado

Quem gosta de ser adulado é digno do adulador


"Ele não pertencia à uma época, mas a todo o tempo." Bem Jonson (1573-1637)

Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer
Pois assim é com a morte. Tantas igrejas, tantas religiões apenas para tentar tornar suportável o inevitável. Se realmente tivéssemos certeza de uma outra vida, de um outro lado deveríamos então comemorar, gritar de alegria cada vez que um de nós caísse ao solo sem vida e sem esperanças. Não há prova maior de descrença na vida eterna que nosso desespero perante a morte.

Quem gosta de ser adulado é digno do adulador:
No momento em que tantas nulidades ascendem ou ao poder ou à fama é nojento ver como se multiplicam os puxa-sacos.Sorridentes,cordiais ou somente bovinos lá estão eles esperando por uma migalha do poder alheio. Prontos para dobrar a espinha, prontos para rastejara de quem não tenha ojeriza do puxa-saco... nada é mais revelador de ignorância e do auto desconhecimento que não duvidar de si mesmo.

Quando os demônios querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhes emprestam:
Por isso são tolos os que se deixam levar pela beleza ou pela retórica. Como aprendemos a não gostar do que é feio, nossa tendência natural é emprestar credibilidade ao que é belo, seja aos olhos ou aos ouvidos. Quantos já não desceram aos infernos mais profundos por conta de um belo sorriso ou de belas palavras. É preciso ter igual medo da beleza quanto da feiura.

Que a discrição te sirva de guia, acomoda o gesto à palavra e a palavra ao gesto... O exagero no ato de representar pode provocar riso nos ignorantes, mas provoca enfado nas pessoas judiciosas:
Tal recomendação parece ter saído de um daqueles guias empresariais, algo assim como se tornar um "low profile" ou não chamar atenção. Na verdade é uma recomendação do próprio Shakespeare para os atores. Mas quando é que deixamos de ser atores, se muitos de nós fingem ser o que não são em casa ou no trabalho? Por isso somos tão próximos dos macacos...adoramos imitar.

Aos homens sobrevive o mal que fazem, mas o bem quase sempre com seus ossos fica enterrado:
Basta assistir ao noticiário para perceber o quanto nos atrai o mal. Mesmo a história é marcada por grandes horrores, tanto que a sua divisão se faz por guerras ou outras desgraças provocadas pela mão humana. Embora neguemos, o mal nos fascina e exercê-lo é como conceder liberdade aos nossos instintos. Já o demora quem se interessa por ele? Na maior parte dos casos quanto a bondade é divulgada é muito mais propaganda que outra coisa.

Da calúnia a virtude não se livra:
Pode ser que sejas o melhor dos homens, mas mesmo assim te alcançará a calúnia e sua irmã gêmea a fofoca. Contra elas não há defesa possível pois os que de ti não gostam se apressarão a espalhá-la. Já nos amigos sempre ficará uma réstia de dúvida. Por isso ao flagrar um caluniador não tenha pena denuncie-o com todas as forças. O único remédio, ainda que paliativo, é expor o fofoqueiro.

A cerimônia foi inventada para dar brilho aos atos pálidos:
Num mundo cada vez mais informal, os cerimoniais nos remetem ao passado e parecem dar um ato de profundidade e dignidade aos seus atos. Nada mais falso, porém nada é mais enganador. Acontece que os homens gostam que lhes seja emprestado valor pelos anéis, roupas e chapéus que são usados nessas ocasiões. Tudo é muito distinto e também muito vazio.

A clemência deixa mais atrevido o crime:
Vivemos num dos países mais violentos do planeta. Aqui se mata por fechada no trânsito, por ciúme, para conquistar território do rival e até por engano. No entanto quanto mais banalizado fica o crime, mais tendemos a relativizar o criminoso. Temos uma relação doentia com nossos ofensores o que fez com que sua ousadia cada vez se voltasse mais contra nós. É como se invés de destruir o câncer, tratássemos de alimentá-lo.

 

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