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As duas armas

Infelizmente os jornais, rádios e tevês estão cheios de profissionais anunciando que detêm técnicas inovadoras e exclusivas quando não salvadoras.


"As pessoas que se perdem em reflexões geralmente não conhecem bem o território." Millôr Fernandes (1924-2012)

Quem acompanha meus escritos sabe que escrevo pouco sobre medicina. Não que falte assunto ou preocupação, mas sim para evitar aquilo que chamamos de conflito de interesses. Ou seja, usar o espaço não para informar ou esclarecer, mas sim para angariar novos pacientes.

Infelizmente os jornais, rádios e tevês estão cheios de profissionais anunciando que detêm técnicas inovadoras e exclusivas quando não salvadoras. E não são poucas as manchetes comemorando cirurgias inéditas...

Sinto decepciona-los, mas na maioria das vezes é apenas marketing vazio a procura de incautos. Ou como diria o velho sambista: "malandro é malandro, mané é mané"!

No entanto fiquei preocupado quando vi campanhas bem organizadas contra o uso de alguns medicamentos e contra a classificação americana de doenças psiquiátricas ou DSM como é melhor conhecida.

Isso não quer dizer que não haja exageros. Médicos assim como outros profissionais estão sujeitos à pressão da indústria e são evidentes os abusos tanto na prescrição de medicamentos quanto na indicação de próteses caríssimas. Claro está que quando a ética e o dinheiro se confrontam os atrativos da primeira são bem menores.

Médicos têm carreiras longas, geralmente na mesma localidade e sua reputação é a chave do insucesso ou sucesso de sua profissão. Portanto a longo prazo, uma série de atitudes que médicos possam adotar podem se revelar desastrosas para sua carreira.

Além disso, não há prova seletiva para o exercício da medicina no Brasil como há para o direito. Estimativas conservadoras apontam que se tivéssemos uma prova nos mesmos moldes, um terço dos formandos não conseguiriam aprovação para atuar. Exagerando, isso significa que tais profissionais que hoje atuam livremente, erram mais de quatro diagnósticos ou tratamentos de cada dez que realizam. Isso é o suficiente para ser aprovado numa universidade, mas uma catástrofe no mundo real.

Nos últimos anos houve uma massificação do atendimento médico para qual se deu o nome de universalização. Com toda população tendo direito a atendimento médico, o número de escolas médicas cresceu exponencialmente no país e tivemos um salto na quantidade de formandos e uma queda na qualidade dos novos profissionais.

Isso reduziu o tempo das consultas ao mesmo tempo que aumentou a oferta, mas criou uma burocracia onde os procedimentos, sejam eles consultas, cirurgias ou exames são reembolsados através do uso de códigos. Isso explica porque para os médicos é tão importante classificar sintomas, afinal sem essa classificação não há pagamentos e exames podem ser negados.
Como se não bastasse, classificar permite além de ordenar e clarear, falar uma linguagem mais objetiva o que auxilia no tratamento dos pacientes e na própria educação médica. O erro está justamente em não entender isso: O DSM é uma ferramenta médica, especialmente da psiquiatria e está longe da verdade absoluta. Ele classifica sintomas, não cria doenças.

No fundo tal discussão traz à tona a velha dualidade cérebro versus mente. Um grupo defende que pode entender comportamento sem entender o funcionamento básico do cérebro. Já o outro quer localizar no cérebro todo e qualquer tipo de comportamento.

Quando essa discussão finalmente amadurecer os profissionais descobrirão que possuem duas armas para utilizar no tratamento de seus pacientes, a psicoterapia e os psicotrópicos. Quando usar um ou outro, ou mesmo quando usar os dois é a arte por trás de cada profissão.

 

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