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O Futuro das conversas caladas


Sentara-me no restaurante para traçar uma a la minuta. Distraía-me com o entorno, enquanto transcorriam os muitos minutos de feitura do prato. As pessoas conversavam com onipresentes e oniscientes
Sentara-me no restaurante para traçar uma a la minuta. Distraía-me com o entorno, enquanto transcorriam os muitos minutos de feitura do prato. As pessoas conversavam com onipresentes e oniscientes "smartphones". Não entre si. Até jovens casais que, provavelmente, têm melhores segredos a compartilhar. Nada de cumplicidade ou animação comum aos diálogos. Só mudez, digitar ansioso e atenção absoluta à telinha. Companheiros de trabalho, pais e filhos e amigos juntos, mas separados.
Quando o prato chegou, faltava-me concentração para degustá-lo. Mesmo que as batatas estivessem douradas como ouro, o bife no ponto e o feijão perfumado pelas folhas de louro. Atraíam-me o dedilhar incessante e o mutismo esquizofrênico. Tanta ausência de empatia fez-me lembrar uma expressão ouvida tempos atrás: "autismo tecnológico".
Saí do restaurante com fome de escrever sobre essa distopia envolvente, na qual a relação virtual ignora a física. Era para ser um alerta sobre um novo amanhã, mas Future é hoje.

"Eram jovens, bonitos e amavam-se com a candura canhestra das novelas mexicanas. Um retrato acabado da paz analógica em contraste com as atribulações dos tempos premidos pela velocidade e relações fluídas.
Centrados um no outro, trocavam carinho conversavam olho no olho e completavam-se em afetos. Serenos a ponto de causar admiração nos próximos e uma pontinha de inveja nos distantes. A vida lhes sorria.
Certo dia, ela participou de um concurso desses magazines nacionais. Ganhou um "Future _ the last generation smartphone". Avançado demais para um celular, definitivo em tecnologia e superior à capacidade cognitiva da maioria dos seres humanos.
Ela procurou entender a novidade. Fez "download" do manual e passou a interagir com o Future. A dedicação à novidade reduziu as longas prosas do casal. Eram tantas coisas: controle de calorias, lista de APPs e atualizações infindáveis. Nunca mais esqueceu aniversários com o companheiro tecnológico de senhor da agenda, por exemplo.
Ele, que achara interessante a conexão digital inicial, estranhou a redução gradual do bate papo carinhoso. Sentiu a frieza e afastamento, mesmo cortejado por tantos "emojis".
Com o tempo, a falta de tempo, intensificou a comunicação virtual. Encontravam-se no Skype, mensagens substituíram conversas e as atividades foram parar no "Face".
Ele, ao perceber a distância, pensou que um Future II recuperaria a antiga atenção. Comprou, "baixou" o manual e leu a promessa de excelência do bate-papo virtual na maravilha tecnológica. Aí, perdeu a paciência de vez:
_ Que bate-papo virtual, "porra"! _ e espatifou o futuro indesejado na parede de concreto.
Queria apenas dias sem pressa, jogar conversa fora e voltar a ser a outra metade de um casal feliz."

SORTE. Estamos em meio à revolução digital e muito longe de compreendê-la. Diante dos "smartphones", adultos maravilham-se como crianças e crianças fundem-se perigosamente ao infinito de poucas regras. Mesmo os mais dotados de luzes estão confusos _ uns não experimentam por preconceito; outros mergulham fundo no abismo das redes. Dúvidas sobre revoluções não significam ignorância, mas parte do aprendizado. Sócrates temia que a tradição oral perdesse valor para o alfabeto adotado pelos gregos. Platão escreveu sobre o mestre, sobreviveu àquela tecnologia e eternizou a obra de ambos.
Para quem tem apetite por semântica: a palavra "futuro" significa "tempo que se segue ao presente". Também quer dizer "sorte" _ boa ou má. Diálogo é um manjar com ingredientes tradicionais da boa sorte; a má tem mais a ver com um prato da cozinha "Future".
Vamos em frente, gente. Mas sem abandonar o bate-papo


Gilberto Soares

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